Uma em quatro pessoas com cancro da mama experiencia depressão, de acordo com a American Cancer Society (ACS).

Durante o mês de outubro decorre o movimento “Outubro Rosa”, que nasceu nos Estados Unidos da América, na década de 90, com o intuito de inspirar a mudança e mobilizar a sociedade para a luta contra o cancro da mama. Ao longo do mês ocorrem várias iniciativas, no entanto, é no dia 19 de outubro que se comemora, efetivamente, o Dia Internacional da Luta Contra o Cancro da Mama.

Apesar de não existirem dados concretos que nos permitam quantificar por completo o impacto psicossocial que esta patologia tem para quem a padece, podemos evidenciá-lo numa abordagem mais pessoal, em vez de estatística. Foi a partir desta ótica que o ComUM decidiu conversar com Soledade Castro, uma mulher de 68 anos, que conseguiu recuperar-se desta doença.

É sabido que para muitos receber a notícia do diagnóstico é a parte mais difícil do processo. De acordo com a sobrevivente “foge-nos o chão debaixo dos pés. Depois, com o passar do tempo, conseguimos agregar aquilo que é a realidade, que nós temos de lutar para conseguir ultrapassar.” Para além da angústia da receção do diagnóstico, o próximo passo é igual ou possivelmente mais devastador: contar à família. “Ficaram tristes, claro… magoados por nos estar a acontecer isto, mas sempre com fé. Os nossos sofrem tanto ou mais do que nós. Eu acho que os meus familiares sofreram mais do que propriamente eu.”

Ao conversar com a sobrevivente é evidente que a família tem um papel fulcral na formação de uma rede de apoio emocional e na recuperação. “Eu olhava para eles e via que eles tinham fé que eu ia recuperar, sempre a apoiar-me. A minha mãe foi o maior apoio que eu tive; estava sempre ali.”

Além da marca física, verifica-se também um impacto significativo na auto perceção assim como na vida sexual dos pacientes. Em muitos casos, os pacientes não se reconhecem no espelho, sentem vergonha da sua aparência, tanto pela falta de peito como pela falta de cabelo. Soledade revela que “Quando rapei o cabelo, nem me queria ver ao espelho, e o que mais me custou foi ter perceção da minha imagem perante os outros. O que mais me afetou foi o cabelo, precisamente”. “E aquela imagem que temos naquele momento fica para sempre na memória.” Esta é uma cicatriz que fica, esta imagem frágil que constroem de si próprios. Esta distorção leva os pacientes à falta de reconhecimento e ao isolamento social, afastando-se, por vezes, da sua rede de apoio, que é tão importante para a recuperação. Estes fatores formam um crescente peso psicológico acrescido ao cansaço físico e impotência, o que culmina na procura pelo acompanhamento e apoio psicológico.

Num estudo realizado pela Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), entidade de referência nacional no apoio ao doente oncológico e família, revelou-se que cerca de 41% dos doentes sentiram necessidade de recorrer a apoio psicológico. Soledade confessa que “Não me afetou muito psicologicamente. Conheço colegas que chegaram a ir a psicólogos e até psiquiatras, mas eu não senti que precisasse. Felizmente, consegui recuperar sem esse apoio. Passei noites sem dormir, tive de recorrer a medicação, mas consegui recuperar.”

A iniciativa do Outubro Rosa e o Dia internacional da Luta Contra o Cancro da Mama não são simples datas no calendário: são recordatórios para a realização de rastreios regulares para prevenir ou detetar precocemente esta doença e para ouvir, apoiar e não julgar aqueles que lutam contra o cancro. Mais do que celebrar a sobrevivência, importa reconhecer o peso duradouro da experiência de quem a vive.

Artigo redigido por Xiomara Abdel Rahim e Beatriz Oliveira