Numa sociedade marcada pelo ruído e pela desinformação, comunicar com verdade torna-se o primeiro gesto de reconciliação.
Esta segunda-feira, dia 27 de outubro, celebra-se o Dia Mundial dos Jornalistas pela Paz. Uma efeméride que procura não só promover, mas sobretudo construir um lugar pacífico na sociedade.
Em condições como as que vivemos atualmente, o papel do jornalismo não se pode basear numa divisão entre lados, mas deve desconstruir qualquer tema em todas as suas camadas, tal como defende Luís Loureiro, professor de jornalismo na Universidade do Minho. “Por exemplo, na Ucrânia, os jornalistas vão à procura das vítimas. O que está errado não é irem à procura das vítimas da guerra de um dos lados, é não irem à procura das dos dois lados”, enuncia o ex-jornalista.
“Eu não escolhi a cobertura das zonas de guerra, escolhi ser jornalista”, recorda Luís Loureiro. A paixão nasceu ainda na universidade, através das rádios pirata, e conduziu-o por uma carreira de quase trinta anos. Uma dessas etapas levou-o ao Líbano, durante um conflito que lhe mudou a visão sobre o papel do jornalismo. “A guerra é uma coisa horrível, ninguém imagina o que é que é uma guerra”, afirma.
A realidade é que os media têm optado por um caminho antagónico. O jornalismo, segundo o docente, tem promovido “sempre a lógica de um versus o outro”. É nesse ponto que Luís Loureiro realça a dificuldade de ser jornalista nos dias de hoje, e que teve a sorte de começar a trabalhar num período otimista. “O jornalismo vai lá e estabelece uma espécie de história da carochinha em que há um bom e há um mau. Há um vilão e um herói. E depois andamos à volta disto. E dá-nos uma realidade muito reduzida acerca do conflito”, referiu o mesmo.
Ao longo das décadas, o mundo viveu imensos conflitos locais e internacionais, que acabaram por abalar todos os países. Nesses momentos, os jornalistas são o principal meio de ligação entre o dia a dia e o epicentro do confronto. A cobertura de guerra expande-se na dificuldade de expor a dor, mas, ao mesmo tempo, pretende fazer do jornalismo a verdade do acontecimento, já que o maior respeito que podemos ter pelas pessoas é contar “as experiências delas”.
Esta cobertura simplificada, segundo o ex-repórter, empobrece a compreensão do mundo e afasta o jornalismo da sua função essencial, que é a de promover a consciência crítica. O chamado jornalismo de paz, inspirado em autores como Johan Galtung, propõe precisamente o contrário do que é feito. Deste modo, deveria ser um exercício que procura compreender as causas profundas dos conflitos, ouvir todos os lados e fomentar o diálogo.
Ao longo da conversa, o professor reflete também sobre o presente: “A paz hoje é aquilo que a gente não tem.” Uma constatação dura, mas real. “Vivemos numa sociedade polarizada, em que não existe vontade de nos aproximarmos das posições do outro. A comunicação devia despolarizar, promover debates saudáveis, com informação verdadeira e sem sensacionalismo”.
Talvez a paz não seja um estado contínuo, mas uma construção diária. E o jornalismo, mais do que um campo de batalha entre versões, deve ser o espaço onde essa construção começa e onde a compreensão vale mais do que apenas informar.
Artigo redigido por Diogo Lima e Francisca Rodrigues


