Estaríamos a mentir se negássemos o impacto que o digital tem sobre nós. Nos dias que correm, o conteúdo que acompanhamos nas redes sociais interfere nas nossas práticas de consumo e modos de vida. A realidade é que a cultura também não resiste a esta tendência.
O desenvolvimento da internet proporcionou a ascensão dos influenciadores digitais que, através das redes, surgem como figuras primárias nas dinâmicas de consumo e, também, nas práticas culturais. Mais do que um simples criador de conteúdo, um influencer é alguém que, graças ao seu carisma e visibilidade online, atrai a atenção de um público e orienta as suas escolhas, hábitos e opiniões. Em vários casos, os influenciadores reúnem comunidades fiéis, proporcionando-lhes um forte sentido de pertença e envolvimento.
Um estudo realizado pelo Pew Research Center, em 2025, concluiu que um em cada cinco adultos, nos Estados Unidos, obtém notícias, regularmente, através do TikTok. Além disso, 55% dos utilizadores adultos desta plataforma, especificamente, admite que a utiliza como fonte de consumo de notícias. Este número representa um aumento significativo em comparação aos 22% de 2020.
Ora, estes dados indicam que os influenciadores já não se identificam apenas como entretenimento, mas como verdadeiros agentes de disseminação cultural e informacional. Em primeiro lugar, ao disseminar informações sobre temas distintos e ao reproduzir ideologias e valores culturais, moldam o comportamento das suas audiências. Em segundo lugar, uma vez que criam comunidades de seguidores, os influencers fomentam uma cultura participativa, permitindo ao seu público interagir, sentir-se parte de algo e, frequentemente, adotar as suas visões.
Ainda mais, além de divulgarem conteúdos culturais específicos, sejam estes sobre música, literatura ou cinema, muitos influenciadores digitais criam o seu próprio conteúdo – publicam livros, desenham coleções de roupa, lançam podcasts, concebem marcas pessoais. No fundo, transformam a sua presença online numa ferramenta de produção simbólica e artística, afirmando-se, de facto, como novos agentes culturais.
Face a esta mudança definitiva na forma como consumimos informação e interagimos com a cultura, considero inevitável não levantar o debate acerca da responsabilidade e das consequências da atuação dos influencers. Em 2024, a UNESCO publicou o relatório Behind The Screens: Insights from Digital Content Creators, segundo o qual 62% dos criadores não verifica rigorosamente a veracidade da informação antes de a partilhar. Este facto revela, então, que a cultura mediada pelos influenciadores é um alvo fácil da desinformação, para não falar da genuinidade das suas recomendações e da propagação de estilos de vida inatingíveis que promovem.
O surgimento dos influencers como novos mediadores da cultura acarreta inúmeros desafios éticos. Se estes agentes possuem o poder de orientar práticas culturais, carregam também a responsabilidade de o fazer com rigor e consciência. Afinal, os influenciadores redefiniram as normas culturais da era digital, desafiando a estrutura tradicional da indústria.


