Steve, o novo drama da Netflix, realizado por Tim Mielants, é um retrato intenso e intimista sobre o desgaste emocional e os limites da empatia. O mais recente filme, protagonizado por Cillian Murphy, é baseado na história do livro “Shy” de Max Porter.

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Steve é professor e diretor de uma escola marcada pelo caos, indisciplina e falta de esperança. Que corre o risco de encerramento. Ele tenta que a escola se mantenha a funcionar fazendo os possíveis para ajudar os seus alunos, rapazes perturbados, enquanto enfrenta o seu próprio colapso. Entre os jovens, destaca-se Shy, um adolescente traumatizado, impulsivo e autodestrutivo, com quem Steve se identifica, e tenta vigorosamente salvar, tornando a relação entre ambos o pilar da narrativa.

À medida que a pressão da escola aumenta, bem como os conflitos, os episódios de agressividade de Shy e o constante sentimento de culpa de Steve intensificam-se. O protagonista tornar-se, assim, o espelho de uma sociedade exausta e até desesperada, onde salvar os outros parece impossível quando nós mesmos nos estamos a afundar.

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A forma como abordam tópicos sensíveis nesta longa-metragem transforma o que seria apenas um drama sobre adolescentes problemáticos numa experiência muito mais profunda pelo seu realismo cru, sem romantismos acerca do tema da saúde mental, o que provoca um maior impacto emocional. Mielants torna o filme bastante imersivo através da proximidade da câmara aos atores em momentos cruciais, dos tons frios que contribuem para a atmosfera tensa e para o peso do ambiente caracterizado pela confusão, ansiedade e desespero.

Outro aspeto notavelmente marcante em Steve é, sem grandes surpresas, a atuação inigualável de Cillian Murphy. A sua interpretação transmite com rigor e de forma natural a vulnerabilidade, a frustração e o esgotamento que o seu personagem sente.

Apesar da qualidade do elenco e da cinematografia claramente se destacarem, é inevitável notar uma certa falta de desenvolvimento tendo em conta o potencial de uma obra tão complexa e profunda. Num espaço de cerca de 1h30min vemos os vários problemas da narrativa a serem resolvidos de maneira apressada, o que por um lado contribuísse para todo o contexto da história, mas que por outro fizesse com que as soluções nem sempre fossem explicadas da melhor forma.

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Além disso, apesar do foco em Steve e Shy ser intencional e conveniente, os personagens secundários, tanto funcionários como, por exemplo, Amanda, ou alunos como Riley, também teriam as suas complexidades emocionais abordadas de forma muito superficial.

Steve deixa de ser um drama e torna-se numa representação genuína da fragilidade humana. Nesta história não há heróis nem vilões, há pessoas a tentarem salvar-se a si mesmas e aos outros, e por vezes a falhar em ambas as coisas. Independentemente da conclusão que os espectadores tirem do fim ambíguo, sobre o que foi ou deveria ser o destino dos personagens, a obra cinematográfica deixa uma mensagem final de esperança (sem fingir que tudo é fácil). Dirige-se a todos que se encontrem perdidos na sua própria mente e em constante ânsia pelo resgate daqueles que os rodeiam, e apela a que peçam ajuda, pois nem todos os colapsos são visíveis, mas também não são para sempre.