A Cicatriz de Maria Francisca Gama, uma narrativa crua e intensa. Uma história fictícia que aborda uma realidade de muitas mulheres ao redor do mundo.

Time Out Lisboa

Ao longo desta obra acompanhamos um casal, “Ele” e “Ela”, de férias no Rio de Janeiro. Uma viagem incrível que termina desastrosamente. Desde o início sabemos que algo terrível irá acontecer, o que faz com que os leitores permaneçam num estado de ansiedade até à revelação.

“Éramos felizes, verdadeiros camaradas e a âncora um do outro. Um dia, o nosso barco afundou-se e nenhum dos objetos que éramos nos salvou.”

Digamos que estamos a ler o diário da personagem principal, em que nos fala sobre as paisagens incríveis do Brasil, da gastronomia, das praias, dos pores do sol, entre muitas outras coisas sobre o país. Até chegarmos à desgraça, onde o tom muda completamente. A partir desse momento, entramos num retrato extremamente profundo e duro, que nos impacta de uma maneira inexplicável. Ainda mais se não soubermos nada sobre o livro.

Escrito na primeira pessoa, a autora fez com que a personagem principal estivesse a falar diretamente com o leitor, o que acaba por criar uma maior empatia com “Ela” e “Ele”. Outro aspeto interessante foi a escolha de não atribuir nomes às suas personagens. À primeira vista, essa escolha pode dificultar a conexão com as personagens, no entanto, aconteceu precisamente o contrário. A própria autora refere, em entrevistas, que esta decisão foi propositada, pretendendo que os leitores pudessem substituir o pronome pelos nomes da mãe, da irmã, da melhor amiga ou qualquer outra pessoa próxima, tornado a leitura mais pessoal e identificável.

“(…) sabia que as tristezas se vivem sozinhas, porque ninguém as sente como nós.”

Apesar da escrita bonita e cuidadosamente pensada, existiram alguns aspetos que podem causar alguma reticência. Primeiramente, logo a primeira frase, “Há qualquer coisa bonita na pobreza”, pode gerar desconforto, transmitindo uma certa sensação de snobismo ou privilégio que não parece enquadrar-se ao tom da obra. Depois, ao longo da narrativa, surgem algumas referências à política. A forma como a autora associa, ainda que subtilmente, a esquerda ao “mau” e a direita ao “bom”, ou a esquerda à pobreza e a direita à riqueza, acaba por ser desnecessária. Trata-se de simplificações redutoras, sobretudo num tema tão complexo.

Há detalhes que podem ser menos convincentes, mas um bom livro no geral. Mais uma vez, uma leitura dura e crua. Uma leitura que não recomendaria a qualquer pessoa, pois aborda temas sensíveis que é preciso ter cuidado, podendo exigir alguma preparação emocional. Daí a autora ter incluído uma nota de aviso no início do livro.

Um livro rápido de ler, com poucas páginas, mas suficientes para nos dar um murro no estômago. Uma narrativa que nos deixa a refletir e emoções que perduram.

“Diz-lhe que morri.”