Entre fogos de artifício e silêncios que pesam, "A Vida Secreta dos Velhos" revelou no palco do Theatro Circo que o tempo pode enferrujar o corpo, mas não o desejo.

Na noite da passada sexta-feira, 28 de novembro, subiu ao palco do Theatro Circo a peça “A Vida secreta dos velhos” (La Vie secrète des vieux), um projeto do realizador, artista e escritor, Mohamed El Khatib. Este peça surgiu na quarentena de 2020, fruto da realidade com que o dramaturgo se deparou quando assistiu às condições de vida dos habitantes de um lar.

Mohamed El Khatib traz aos palcos uma perspetiva nova e necessária. O dramaturgo oferece um olhar profundo à vida secreta da geração esquecida, fundamentado nas histórias reais de pessoas entrevistadas para efeito desta peça.

O espetáculo explora temas como o envelhecimento, as mudanças físicas que este traz, a sexualidade e novos amores, além de descoberta pessoal. A representação contrasta a fragilidade física com a persistência do desejo e desmistifica o amor no fim da vida, evidenciando que não são as rugas que congelam a emoção e o sentimento, mas sim o olhar reprovador da família. Aborda ainda a sexualidade na terceira idade, mostrando como é possível reconhecer e aceitar desejos e identidades que, por vezes, não são plenamente compreendidos.

Com uma encenação que alterna entre momentos de conversa animada e pausas de reflexão, o espetáculo constrói um espaço de diálogo intergeracional, onde a memória surge como bengala para a partilha. Nesta peça, os tabus da velhice são abordados com leveza e humor.

Mesmo diante de temas como o suicídio e a perda, a narrativa mantém a serenidade de quem carrega décadas de experiência e encontra na memória um lugar para a aceitação. A autenticidade dos relatos aproxima o público da narrativa e culmina num final emocionante, com a peça a ser aplaudida de pé.