Cabeça-Dinossauro é o terceiro álbum de estúdio da emblemática banda de rock brasileira Titãs. Trata-se de um álbum com treze faixas, onde cada uma contribuiu para revolucionar este género musical com o seu caráter crítico e rebelde, e destoa-se de tudo aquilo que o conjunto havia feito até então. Este convida-nos não só a mergulhar nas suas letras e melodias provocantes, mas também a questionar sobre tudo aquilo que pensamos que conhecemos.

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Em relação ao seu título intrigante, a palavra “Cabeça” pretende fazer referência ao racional, e “Dinossauro”, ao primitivo, o que se relaciona diretamente com o que o álbum pretende transmitir ao realçar o conflito entre racionalidade e barbárie presente na sociedade brasileira dos anos 80. 

Ao longo da obra, percebe-se um estilo de rock cru e agressivo, assim como uma forte presença de críticas sociais e políticas, com o intuito de representar o cenário político do Brasil naquele momento, após o fim da ditadura militar: um período onde, segundo um dos próprios membros da banda, Charles Gavin, “o clima era de desilusão, um cenário de distopia”.

Na primeira faixa, Cabeça-Dinossauro, há repetições marcantes como “Cabeça-dinossauro”, “Espírito de porco” e “Pansa de mamute”, com o fim de criticar comportamentos retrógrados e conservadores. A sua estrutura simples contribui para o tom de protesto e transmissão da mensagem de forma transparente e acessível. 

Em Polícia, temos uma crítica direta à conduta da polícia no Brasil. Esta é feita, principalmente, através da ironia presente no refrão – “Polícia! Para quem precisa de polícia!” – a retratar que, para muitos, esta instituição transmite mais a ideia de ameaça do que de proteção.  Por meio da repetição de ordens como “cooperar”, “obedecer” e “respeitar”, a banda expressa abuso de poder. Para além disto, esta música reflete a experiência de Tony Bellotto, guitarrista da banda, após ser preso por porte de heroína.

Por último, em Homem Primata pretende-se tecer um julgamento ao comportamento do humano na sociedade moderna, mostrando que, apesar de avanços sociais e tecnológicos, este ainda age de maneira primitiva. O seu refrão, “Homem primata, capitalismo selvagem”, representa diretamente a forma como o capitalismo molda as nossas atitudes de maneira egoísta e violenta. Para além disso, o uso de expressões como “selva de pedras” e de citações de músicas como Concrete Jungle simboliza a alienação e desorientação do cidadão no ambiente urbano.

Desta forma, Cabeça-Dinossauro não se porta somente como uma obra-prima do rock brasileiro, mas também como uma maneira de refletirmos sobre a sociedade em que estamos inseridos, pois, por mais que tenha sido feito um avanço num tempo passado, há certas questões que, infelizmente, perduram até agora.