As Mulheres Eternas é o terceiro livro da saga The Gilded Ones, escrita pela autora sierraleonesa Namina Forna. É uma das vozes mais proeminentes da literatura de fantasia contemporânea, especialmente no género da afrofantasia. A trilogia acompanha Deka, uma rapariga marcada desde cedo por poderes extraordinários e pela condição de alaki, mulheres consideradas impuras e imortais no universo fictício de Otera. Neste último volume, a protagonista aproxima-se do momento decisivo da sua jornada: descobrir o seu celestium e ascender ao estatuto divino, numa história que combina fantasia épica, crítica social e representatividade.

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O enredo é marcado por inquietação e expectativa. Agora que Deka se encontra perto de ascender ao estatuto de deusa, o conflito interno entre cumprir o seu propósito e o desejo de não abandonar os seus amigos torna-se cada vez mais intenso. Esta luta emocional contribui significativamente para aumentar a tensão da narrativa e manter o leitor envolvido no desfecho da saga.

O worldbuilding está repleto de referências a culturas africanas, apresentadas numa narrativa envolvente e visualmente rica. As mitologias e tradições criadas por Forna são complexas e originais, construindo um universo onde a diferença e a representatividade ocupam um lugar central e conferem à obra uma identidade própria. O sistema de magia, em particular, revela-se intrigante pela sua profundidade e pelas regras que o regem, elevando a dimensão fantástica da história e distinguindo a saga de outras fantasias juvenis mais convencionais.

“Quando for uma deusa, Otera finalmente ficará em paz. Todos levarão a vida que quiserem. Exceto eu.”

Outro dos pontos fortes do livro é a forma como este dá palco a críticas à sociedade contemporânea. Forna utiliza o enredo e o mundo fictício para iluminar questões atuais e relevantes, como o controlo sobre os corpos femininos, o impacto da violência institucional, desigualdades sociais ou estruturas de poder. Essa camada metafórica acrescenta profundidade ao texto e reforça a pertinência da obra.

“Os edifícios que parecem joias cintilam no calor do Sol, fazendo com que toda a ilha pareça iluminada por dentro.”

Contudo, a história desenrola-se num ritmo acelerado, o que se pode tornar num desafio para leitores que não tenham acompanhado os volumes anteriores, sobretudo devido ao grau de complexidade do universo criado. A abundância de novos elementos, poderes e personagens exige alguma familiaridade com a saga para que a leitura decorra de forma fluida.

Em suma, As Mulheres Eternas revela-se um livro de grande relevância temática e um excelente exemplar de literatura de afrofantasia. Contrasta, assim, com as ficções mainstream tipicamente eurocêntricas e apresenta uma alternativa refrescante dentro do género.

“A culpa é sempre dos que estão à margem.”