O Outono da vida
Outubro é sinónimo de dias mais curtos e árvores cobertas em tons quentes. As folhas vão caindo lentamente e formando tapetes coloridos no chão. Há uma serenidade neste fenómeno da natureza — a aceitação tranquila de que cada ciclo tem o seu fim e a sua beleza. Talvez por isso este seja também o mês dedicado aos idosos: aqueles que passam pelo outono da vida.
Mas tal como as folhas ficam esquecidas na berma da estrada, nos passeios, nos vidros dos carros estacionados, os idosos são esquecidos nos bancos dos jardins, nas casas demasiado grandes para um só corpo, ou nos lares onde os ponteiros giram devagar, como se o tempo também tivesse envelhecido.
A sociedade que idolatra a juventude e a produtividade parece não saber o que fazer com quem já não corre, já não produz, já não “serve”. Evitamos olhar de frente a fragilidade, o corpo que já não responde, a mente que às vezes se perde — porque nos lembra do nosso próprio destino.
Mas há uma sabedoria serena em quem já viveu muitos outonos. Uma forma mais leve de olhar o tempo, sem a ânsia de o dominar.Talvez fosse tempo de aprendermos com eles, e com as árvores. Elas não rejeitam o outono; deixam cair as folhas com dignidade, sabendo que a beleza também vive na despedida. Cuidar dos nossos idosos é, de algum modo, cuidar de nós mesmos — do nosso futuro outono.
Outubro deveria ser mais do que um mês de gestos simbólicos. Deveria convidar-nos a olhar com atenção para quem envelhece ao nosso lado, a reconhecer o valor de uma presença que, muitas vezes, passa despercebida. Lembrar os idosos é, no fundo, reconhecer quem nos antecedeu e entender que todos partilhamos o mesmo caminho do tempo.
Artigo escrito por Inês Borges


