No mês em que se assinala esta efeméride, membros do Cineclube de Braga e do coletivo Estudantes Pela Palestina UMinho salientaram a importância da luta contra a opressão e a injustiça.
A sensibilização para o direito de autodeterminação dos palestinianos é o alicerce do Dia Internacional de Solidariedade com o Povo da Palestina, que se assinala pela 49.ª vez hoje, dia 29 de novembro. O ComUM esteve à conversa com Jéssica Sérgio Ferreiro, do LUCKY STAR – Cineclube de Braga, para saber mais sobre como a arte pode ser um forte canal para a sensibilização, e César, do coletivo Estudantes Pela Palestina UMinho, que abordou a relevância da mobilização da comunidade académica.
O papel do cinema na luta contra o silenciamento
O LUCKY STAR – Cineclube de Braga programou, durante este mês de novembro, o ciclo “Palestina Livre: O Cinema como Resistência”, com sessões todas as terças-feiras, às 21h30, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. Segundo Jéssica Sérgio Ferreiro, a ideia de “dedicar um ciclo inteiro ao cinema da Palestina” já estava nos planos desde o ano passado, a propósito do ciclo “Cinema Todo-Mundo: colonialismo e a memória do futuro”.
Jéssica partilhou que, para o cineclube, “o cinema, e de modo geral, a arte, é o último reduto para a expressão e afirmação individual e coletiva, quando existe repressão e silenciamento”. Quanto aos filmes transmitidos ao longo do mês, destacou “Fertile Memory”, um clássico de 1981, “considerado a primeira longa-metragem totalmente filmada na Palestina (Cisjordânia), por um realizador também de origem palestiniana”. O filme mostra a resistência diária das mulheres no território ocupado.
“Israel produz ficções e a Palestina documentários”, sublinhou a integrante do Cineclube, citando Jean-Luc Godard. Para Jéssica, estes são a “prova da condição desigual e opressiva em que os palestinianos se encontram”, acrescentando que “são testemunhos da violência e da resistência do povo palestiniano ao longo de décadas”.
O ciclo contou, também, com a participação da Civitas de Braga e da Braga Fora do Armário, associações que divulgaram as várias ações que têm desenvolvido em prol da Palestina, incluindo vigílias e manifestações. Jéssica Sérgio Ferreiro salientou que estas possibilitaram, ainda, a exibição do filme “Foragers”, de 2022, que trata a problemática da proibição pelo governo israelita de um “conjunto de ervas aromáticas usadas na culinária palestiniana tradicional”.
“Dignidade” foi a palavra que Jéssica escolheu quando questionada sobre como os portugueses podem ser solidários com o povo da Palestina. “Quaisquer ações, pequenas ou grandes, com impacto local ou global, são importantes para se tomar consciência, fazer corpo social e comunicar o que, enquanto coletivo, defendemos”, partilhou. Jéssica confessou também que “é absolutamente abjeto não defender o direito à liberdade e à autodeterminação do povo palestiniano, ou de qualquer outro, e defender o colonialismo”, acrescentando que é inaceitável que pessoas vivam e morram nas condições “mais cruéis e desumanas”.
“Infelizmente, até à data, o conflito na Palestina tem se intensificado e as condições de vida para os palestinianos têm-se tornado cada vez mais difíceis, se não impossíveis”, alertou ainda Jéssica. Segundo a Amnistia Internacional Portugal, ataques israelitas mataram em Gaza pelo menos 327 pessoas, incluindo 136 crianças, desde o anúncio do cessar-fogo a 9 de outubro. Os sobreviventes vivem com restrições ao “acesso a ajuda crítica e provisões de emergência, incluindo provisões médicas e equipamentos necessários para reparar infraestruturas essenciais à vida”.
Os coletivos e o apelo à solidariedade
Também César, um dos fundadores do coletivo Estudantes Pela Palestina UMinho, mencionou que o acordo de paz é “apenas mais areia para os olhos”. Referiu que “o cerco a Gaza, a ocupação e expansão ilegal dos colonatos e os ataques na Cisjordânia continuam” recordando “o mais recente plano colonial para administrar Gaza, sem qualquer oposição das maiores potências imperialistas do mundo”.
A associação voluntária tem estado focada “em ações de apoio mútuo a famílias palestinianas”, organizando também debates, um clube literário e colaborações com outros coletivos regionais, nacionais e internacionais em protestos e ações educativas. César confirmou que “a comunidade em geral é solidária, principalmente as pessoas que já estão mobilizadas em outras frentes da luta”, apesar da dificuldade em mobilizar a comunidade estudantil e bracarense “por diversas razões culturais e individuais”. Lamentou que os portugueses não tenham o hábito de se juntar a causas, acrescentando-se a isso “a visão orientalista do outro perpetuada pela grande media e pelo pensamento ocidental”.
Relativamente à forma como os estudantes da Universidade do Minho podem ser solidários com os palestinianos, César referiu que o melhor é “educarem-se acerca da situação” e mobilizarem-se. Sublinhou que não se pode ficar à espera de uma resposta dos estados ou da comunidade internacional que “não agem por um qualquer senso de moralidade, mas sim pelos seus próprios interesses”. “Não somos imunes ao tipo de opressão sofrida pelos palestinianos, e aceitar o que está a acontecer na Palestina há mais de 77 anos é apoiar este sistema onde a opressão é legítima e possível”, salientou.
Apesar da diversidade de opiniões, o coletivo está de acordo na defesa da autodeterminação do povo palestiniano, que, segundo César, apenas poderá surgir da vontade coletiva dos próprios. O ativista concluiu que “há um consenso geral de que, para haver paz, tem de haver justiça, e para haver justiça, a relação de opressão tem de ser desmantelada.”
O Estudantes Pela Palestina UMinho surgiu “após uma concentração na Universidade em maio de 2024, durante a onda de ocupações em solidariedade com a Palestina”. A intenção foi de fazer uma série de exigências, como um posicionamento por parte da universidade, cortando relações com instituições israelitas e cooperando com palestinianas. Segundo César, “estas reivindicações foram parcialmente conquistadas após 22 dias de ocupação”.
O que justifica assinalar-se o Dia Internacional de Solidariedade com o Povo da Palestina?
Portugal reconheceu oficialmente o Estado da Palestina este ano, quase oito décadas depois da Organização das Nações Unidas ter adotado a Resolução 181 sobre a Partilha da Palestina, nesta data, em 1947. A divisão do território entre um Estado judeu e outro árabe nunca foi consensual. Em maio de 1948, a criação do Estado de Israel obrigou entre 750 mil a 800 mil palestinianos a abandonar as suas casas. Muitos deles tornaram-se refugiados ou instalaram-se em Gaza ou na Cisjordânia, áreas controladas ilegalmente por Israel muito antes do dia 7 de outubro de 2023.
Apesar do longo histórico do conflito, a guerra em Gaza incrementou o seu mediatismo, globalizando os apelos do povo palestiniano. Mais de 67 mil pessoas foram mortas em dois anos, de acordo com dados recolhidos pela CNN Portugal, que indica, também, que “Israel matou em média mais de uma criança por hora”. Segundo o Público, entre as vítimas registadas até setembro incluem-se mais de 240 jornalistas e 181 trabalhadores humanitários.


