Neste passado Halloween, a banda Florence + The Machine lançou o seu sexto álbum, Everybody Scream. O projeto foi criado após a vocalista, Florence Welch, ter um aborto espontâneo devido a uma gravidez ectópica. Durante a recuperação, a artista mergulhou nas histórias sobre bruxaria e magia, querendo usar o seu álbum para explorar temas como a feminilidade, a dor e a mortalidade, através do terror folclórico e misticismo. Alguns dos colaboradores incluem Mark Bowen, Aaron Dessner e Mistki.
A primeira impressão do álbum é a capa provocadora. Distorcida por uma lente de olho de peixe, Florence Welch está deitada numa cama rodeada por velas apagadas numa pose sensual. A imagem tem várias interpretações, podendo ser um ato de sedução, autoerotismo, ritual oculto ou mesmo um parto. Contando com as capas alternativas, conseguimos perceber a estética do álbum, algo mais sombrio e poderoso. Os videoclipes que acompanham o projeto ajudam na construção dessa estética, inspirando-se muito em filmes de terror clássicos como Rosemary’s Baby (1968) e Blood and Black Lace (1964).
A faixa titular de abertura celebra o refúgio seguro que são os concertos. O instrumental punk-rock, inspirado na música Angel of My Dreams, de JADE, é misturado com vocais cativantes que nos fazem sentir como se estivéssemos sob um feitiço. Everbody Scream é uma transição direta da última faixa do projeto anterior da banda, Morning Elvis. Enquanto Dance Fever (2022) retratava desejos de reforma, Welch e Mistki mostram, nesta faixa, o desejo de voltar ao palco apesar dos danos mentais e físicos da artista. (“But look at me run myself ragged/ Blood on the stage/ But how can I leave you when you’re screaming my name?”).
Uma das melhores faixas do álbum é a mais longa, contando com seis minutos e meio de duração. One of The Greats é a reflexão da cantora sobre a sua própria mortalidade complementado com as suas inseguranças criativas, a imortalização da sua carreira e o privilégio masculino na indústria musical (“It must be nice to be a man and make boring music just because you can”). A guitarra e bateria acompanham a crescente irritação de Welch, que, mesmo depois de anos de carreira, não tem o reconhecimento que merece (“Did I get it right?/ Do I win the prize?”). Esta música também conta com a participação de Ethel Cain nos vocais de fundo.
Mantendo o tema anterior, em Sympathy Magic, a vocalista soa desesperada e fora de si ao descrever o desejo de sair da zona de conforto já que manter-se no seu género não ajuda as críticas (“I no longer try to be good/ It didn’t keep me safe”; “So come on, come on, I can take it/ Give me everything you got”). Florence entrega uma performance vocal descontrolada acompanhada de uma produção mágica que vai aumentando ao longo da faixa.
Neste álbum, Welch também explora como dedicar-se totalmente à música afeta a sua vida. Um bom exemplo deste dilema é Drink Deep. Parecendo um ritual de bruxas, a artista descreve o processo drenante da performance “como se descobrisses que te está a tirar toda a energia vital e simplesmente continuas a voltar”. Music by Men também demonstra a realidade de ter uma relação quando o seu verdadeiro amor é a música. Como a relação descrita nesta música é complicada, a cantora decide experimentar fazer música mais simples na tentativa de salvar a sua vida pessoal (“Breaking my bones, getting four out of five/ Listening to a song by The 1975/ I thought, ‘Fuck it, I might as well give music by men a try’”).
O trauma do aborto espontâneo de Welch é uma grande marca emocional neste projeto, evidenciado pelas músicas Kraken, Sometimes my body seems so alien to me, The Old Religion, Freedom from the body, freedom from the pain, e You Can Have it All, que conta com um dos momentos mais poderosos. A penúltima faixa do álbum é uma rendição total de tudo o que Florence abdicou e sacrificou para construir a arte e carreira que sempre desejou.
Everybody Scream dedica-se a encarar a dor e a transformá-la num ritual de libertação e poder. Com pontos altos e baixos, o álbum apresenta algumas das melhores produções e performances da banda londrina. O projeto reforça Florence + The Machine como criadores de uma estética, especialmente na área da feitiçaria e terror, acompanhada por letras profundas.
Álbum: Everybody Scream
Artista: Florence + The Machine
Editora: Universal Music Group, Republic Records
Data de lançamento: 31 de outubro de 2025



