Publicado em março de 2024, It Lasts Forever and Then It’s Over (“Dura para sempre e depois acaba”) ainda não foi traduzido para português, mas já deixou marca lá fora. Co-vencedor do Prémio Novel 2022, distinguido com o Ursula K. Le Guin Prize e outros galardões, este pequeno livro de apenas 128 páginas confirma Anne de Marcken como uma das autoras mais inventivas da ficção contemporânea.

New Directions Publishing

Trata-se de um romance de zombies; por isso, nada aqui é convencional. A protagonista é uma morta-viva que não se lembra do próprio nome, mas que recorda fragmentos da sua vida anterior, sobretudo o amor que a guiou em vida e continua a mover-lhe o corpo em morte. A narrativa desenrola-se como um diálogo íntimo com essa amada perdida. Através dela, de Marcken reconstrói um apocalipse visto por dentro, numa prosa lírica pontuada por momentos de humor desconcertante.

“Não sinto falta do meu nome e não me preocupei em substituí-lo. Sinto falta do teu nome. Desculpa, mas também o esqueci. Não o procuro nas paredes. A ideia de que posso lê-lo e passar por ele, simplesmente seguir para o próximo nome, é terrível. É como encontrar-te noutra vida e não te reconhecer.”

A heroína começa como habitante de um hotel, que funciona como residência para vários mortos-vivos. Falta-lhe um braço, mas sobra-lhe a memória, que insiste numa cena à beira-mar onde foi feliz. A ironia atravessa o romance. Em vida era vegetariana, agora, vê-se obrigada a comer humanos. O vazio surge como luto, como ausência de fome, como ausência de membros, como condição.

Um dos momentos mais marcantes acontece quando encontra um corvo morto, que decide guardar debaixo das costelas. Este corvo murmura palavras soltas, sem lógica, como um oráculo avariado: maçã, braço, tinta, coroa. A presença dele torna-se no duplo absurdo e poético desta viagem.

O impulso da saudade leva a protagonista a abandonar o hotel. Atravessa cidades destruídas, casas abandonadas, ruas vazias. Encontra sobreviventes humanos, uma idosa que se sacrifica por uma criança recém-transformada, e uma comunidade de mortos-vivos que a ajudam num ritual que lhe remove a fome por carne humana. No lugar dela, instala-se um silêncio: um vazio novo.

“O que é familiar porque já vi antes e o que é apenas parte de uma história familiar? O que é lembrado e o que é recebido? O que é estranho porque esqueci, ou porque é novo, ou porque desta vez estou a pé, ou porque desta vez sou uma morta-viva, ou porque desta vez estou sem ti?”

É também capturada por humanos que, acreditando que continua perigosa, separam a sua cabeça do corpo. Esta inversão do ser humano como o vilão de uma história sobre zombies é muito interessante.

A mesma idosa de algumas páginas atrás reaparece para a libertar.  Literalmente partida ao meio, a protagonista segue então até à praia, com a cabeça espetada no topo de um pau e o corpo a avançar alguns passos atrás. Esta descrição da separação é uma das passagens mais fascinantes do livro. O desfecho é igualmente poético: o corpo entra no mar e deixa-se tomar pelas ondas, enquanto a cabeça observa da areia, vendo-se a si mesma à deriva.

Apesar da estranheza do enredo, o verdadeiro poder da obra está na forma como de Marcken compreende o ser humano e traduz emoções complexas através de situações extremas. O livro abre com o verso de Ricardo Reis — “Somos contos contando contos, nada.” — e toda a narrativa reverbera essa ideia do “nada”, da ausência como forma de ser. Também é uma reflexão sobre envelhecer, contada por alguém que nunca mais envelhecerá. Tudo aquilo que consideramos falha — dor, mortalidade, desgaste — transforma-se em desejo. E depois há o amor. Mesmo sem conhecer a outra metade do casal, sentimos a intensidade que a movia.

Não há nada que se possa comparar a It Lasts Forever and Then It’s Over. A verdadeira ironia é o livro não ter durado para sempre, e não querer que ele acabasse.