O conceito de álbum é algo que, para além de subjetivo, é revestido de uma complexidade que o torna difícil de definir. Para alguns, este é só um número incerto de faixas que se conectam, quer pela sua musicalidade, quer pela sua temática, quer, em casos raros, pela sua diferença. Outros, porém, consideram-no uma trilha sonora omnipresente, que os acompanha, ou, para os mais pessimistas, que os persegue em todos os lugares. Todavia, os ouvintes mais sensíveis veem neste conceito uns longos e acolhedores braços, repletos de claves e notas musicais, que os protegem da dura realidade.
Desta forma, as definições de “álbum” conseguem ser inúmeras e igualmente discutíveis, se a democracia assim o permitir. Contudo, o lançamento do polémico The Life of a Showgirl, o mais recente projeto da cantora Taylor Swift, desencadeou a discussão acerca destas duas diferentes perspetivas: será um álbum uma obra de arte, ou apenas um produto?
Tudo começou com a publicação de onze versões de capas para só um trabalho, que acabou por desapontar os fãs. Ao ansiarem por uma produção que lembrasse o teatro musical e o glamour das tiaras de penas e brilhantes, receberam as banais sonoridades pop já antes conhecidas. O maior problema é que, com estes diversos covers divulgados diariamente, foram simultaneamente lançados mais 11 vinis e CDs que se aclamavam únicos por apenas conterem a mais incrível e exclusiva gravação de Taylor no processo de criação da composição dos versos, mais tarde descritos por muitos como superficiais, de The Life of a Showgirl.
Com isto, a estética inicial do álbum perdeu-se completamente num caminho caracterizado pela promoção de demasiados produtos e pelo incentivo ao consumismo fanático e desmedido que provoca, entre os fãs, uma competição gigante de quem consegue ter mais edições especiais. Questiona-se, assim, a necessidade de tanta capa, de tanto vinil, que, para além de inimiga de um mundo ecológico, fomenta unicamente a ação de comprar, ao invés da imersão nas próprias faixas e na própria música.
Analisar a multiplicidade de capas implica igualmente uma observação atenta aos lançamentos das famosas deluxe versions. Trata-se de uma versão do mesmo álbum que apenas contém umas adicionais quatro faixas que, coitadas, no projeto principal não se enquadravam, mas numa edição um pouco mais extensa, já são canções perfeitas. A verdade é que estes “adereços” são apenas uma desculpa para um eventual (e inesperado, claramente) aumento das vendas e da relevância destes cantores, que, porventura, não foram tão bem sucedidos como previam.
Isto são álbuns vistos como produtos que vendem e publicitam, tornando a música num bónus e fator secundário na sua estratégia de marketing que, parecendo eficaz no início, irá progressivamente perder o seu efeito na memória das pessoas. Estes são projetos passageiros e que, por falta de iconicidade musical, produtiva e estética, não se tornarão clássicos.
Os clássicos, esses, são aqueles em que os autênticos artistas se dedicam unicamente à música e àquilo que ela representa para si. São aqueles que conseguem inovar a um nível inexplicável, criando melodias nunca antes ouvidas. São aqueles que pensam num álbum como uma peça rara, que não depende de acrescentos e decorações para se tornar arte. São aqueles que tornam a estética visual numa das características da sua obra de arte, que os completa, mas não os define.
São, portanto, esses os critérios, ou características, como cada um quiser nomear, que conseguem criar uma lista quase universal dos álbuns que a maioria considera obras de arte. Vejamos o caso de OK Computer, dos Radiohead, que associa uma capa deveras bizarra com uma produção que mistura instrumentos clássicos e sons robóticos; atentemos no célebre Nevermind, dos Nirvana, que, com a sua capa azul com o imprevisível bebé como figura principal, desafiou os limites do normal e arrojou-se com os sons rock que se tornaram referência; contemplem ainda o específico tipo de letra que define Rumours, dos Fleetwood, que nos trouxe, num só projeto, a combinação da voz incomparável de Stevie Nicks e batidas intrínsecas ao corpo dos amantes da música nos anos 70.
A resposta à pergunta inicial parece, então, ter uma simples resposta: se um álbum é cuidadosamente pensado, criado e produzido, é, igualmente e indubitavelmente, uma peça de arte, que vive da sua própria inovação e criatividade, sem necessitar de estratégias de vendas. Porém, será que num mundo cada vez mais consumista esta definição, aparentemente óbvia, irá mudar? Será que, no futuro, a música como obra de arte corresponderá a um produto que consegue vender?


