Considerado um marco para uma nova geração de leitores de fantasia, “A vida invisível de a Addie LaRueconsolidou-se como uma obra que entrelaça romance, história e ficção. Publicado a 6 de outubro de 2020, pela reconhecida escritora norte-americana V.E. Schwab, o livro tornou-se um êxito internacional que dividiu opiniões.

V. E. Schwab

A narrativa desenvolve-se em torno da questão “É possível viver eternamente sem deixar qualquer marca?”. Este dilema conduz o leitor a momentos de reflexão inevitáveis sobre o valor da memória, a construção de identidade e a necessidade de manter laços afetivos.

A ação decorre ao longo de três séculos, com saltos temporais contínuos entre 1714 e 2014. Com apenas 23 anos, Adeline LaRue sela um pacto com o Deus da Escuridão, motivada pelo desejo de escapar ao destino traçado por um anel que a sociedade setecentista lhe impunha. Assim, decide trocar a sua alma por liberdade e, como consequência, acaba por ficar novamente aprisionada, mas, desta vez, pela solidão.

A protagonista é apagada da memória de todos, adquirindo imortalidade. Ironicamente, o símbolo deste acordo é também um anel, agora de madeira, cravado pelo seu pai. Um objeto com valor sentimental transforma-se cruelmente numa verdadeira maldição.

Com o tempo como único aliado, aprende lentamente como batalhar as limitações estabelecidas pelo contrato divino, contando apenas com a companhia do Deus que a condenou. Entre furtos e encontros esquecidos, Addie procura incessantemente deixar um vestígio no mundo da própria existência.

Quando permanece, pela primeira vez, na lembrança de alguém, tudo muda. O encontro com Henry suaviza as cicatrizes de um período prolongado de isolamento. A passagem do tempo também o aterroriza, mas não do mesmo modo que a protagonista, cada tique dos ponteiros do relógio, sente o peso da efemeridade a comprimir-lhe o peito. Para não o perder, Addie arrisca-se num último sacrifício e com a ajuda de Henry, LaRue consegue finalmente deixar uma marca no mundo.

Entre os momentos de maior impacto destaca-se a perceção devastadora das consequências do pacto. Ao regressar a casa, os pais não a reconhecem, e os traços da sua face, outrora familiares e memorizados, surgem enodoados, e ela não passa de uma sombra, riscada de modo tão simples da vida deles. Incapaz de proferir o próprio nome, tenta a sua sorte com Estelle, uma idosa com quem tinha tecido uma profunda e improvável amizade, e a dor atinge o ápice quando é tratada como se nunca tivesse existido.

“Esquecer é uma coisa triste, claro. Mas é muito solitário ser esquecido. Lembrar-se de tudo, quando ninguém mais se lembra”

As palavras desenhadas por Victoria Schwab, são cruas e intensas, capazes de espelhar com rigor e riqueza o sofrimento e o desespero humano. Addie não morre de fome, nem frio, embora continue sujeita aos seus efeitos extenuantes. É humana, sem o ser.

A autora consegue converter cada capítulo, cada página, cada frase, numa viagem introspetiva que arrebata o leitor e o submerge numa onda de inquietação. A sua perícia na construção metafórica e simbólica, aprofunda cada detalhe, por mais frívolo que pareça, elevando-o a algo verdadeiramente significativo. As personagens, apesar de numerosas, revelam uma complexidade surpreendente e surgem em pontos estratégicos do enredo.

Os constantes avanços e retrocessos na extensa linha temporal, aproximam o leitor da experiência vivida pela personagem. Em contrapartida, por não seguir uma estrutura linear, gera alguma confusão narrativa. A apresentação de novas faces e nomes das diversas pessoas que cruzam a longa vida de Addie, intensifica essa dificuldade. A informação surge, por vezes, de forma densa e dispersa e é exigida uma atenção ininterrupta do leitor para se poder orientar entre datas e acontecimentos.

V.E. Shwab conseguiu, apesar disso, encantar de modo singular, leitores que certamente não se esquecerão de Addie LaRue. A força emocional da obra e a construção simbólica da sua protagonista garantem que a história permaneça viva na memória de quem a lê.