O primeiro filme da linhagem mais recente da franquia Jumanji mantém-se um título de renome no mundo das produções cinematográficas de aventura cómica. Tendo provocado o aparecimento de uma sequência em 2019, e um terceiro volume ainda para vir em 2026, o Jumanji original é, devidamente, também o mais famoso. Apesar de se aproximar o seu aniversário de dez anos, a adaptação moderna de Jake Kasdan sobrevive ao teste do tempo com uma peripécia que irá arrancar o fôlego, ou pelo menos um riso.
A premissa da história, hoje em dia, não é estranha a ninguém: o transporte inusitado para um mundo diferente, onde as personagens resolverão problemas, e passarão elas mesmas por algum desenvolvimento pessoal. Neste caso, quatro adolescentes são arrastados para dentro de Jumanji, um antigo e desconhecido videojogo. Após serem absorvidos pela consola, apercebem-se que adquiriram a forma dos avatares que haviam escolhido. Pelo resto da aventura, são obrigados a adaptar-se aos novos corpos que têm, fisicamente e mentalmente distintos dos seus originais, até completarem o objetivo que os trará de volta.
Ter um videojogo como ambiente da ação é uma ideia com grande potencial criativo. Porém, Jumanji utiliza mais o conceito para fazer referência a elementos típicos desta forma de entretenimento, ainda que alguns desses sejam, de facto, importantes para a resolução de obstáculos durante a aventura. Mesmo que essas referências sejam maioritariamente superficiais, os momentos de ação no filme não sofrem por sua causa. Aliás, algumas dessas cenas, chegam mesmo a ser elevadas pelo comportamento único e liberdade que uma personagem de um videojogo teria.
Em Jumanji, cada membro do quarteto tem o seu papel na demanda para sair da ilha. Consequentemente, Dr. Smolder Bravestone (Dwayne Johnson) e Ruby Roundhouse (Karen Gillan) destacam-se pelos seus stunts de ação, muitos dos quais se veriam num típico filme de aventura na selva, como um Indiana Jones moderno (a sua visualidade selvagem pode também sofrer do mesmo elogio).
Nem todos os momentos de aperto exalam ameaça como deveriam, porém a adrenalina é suficientemente efetiva para funcionar naturalmente num filme de comédia. E por falar em comédia, Shelly Oberon (Jack Black) será a principal fonte dos risos do espectador, à parte das ocasionais piadas e trocadilhos baseados nas mecânicas do videojogo. O humor de Black torna-se previsível em certas alturas, mas entretém o bastante para garantir o género cómico da longa-metragem. Além disso, a personagem de Jack prova ser um dos elementos cuja aprendizagem pessoal é a mais satisfatória de observar no ato conclusivo.
O facto de Jumanji se tratar de uma produção cómica dá-lhe o caráter icónico por que é reconhecido. Todavia, existe o argumento de que esta característica pode ser um entrave a uma narrativa mais profunda e bem pensada. As transformações das personagens, por exemplo, são tratadas como algo necessário a acontecer, e não como uma possibilidade; o seu desenvolvimento é crucial para que a história possa concluir com sentido. O efeito disso reflete-se num desenlace parcialmente acelerado, que poderia ter dado mais tempo aos adolescentes, nos últimos minutos, para assimilar as aprendizagens da peripécia que viveram.
Outro aspeto que poderia ter sido visto mais atentamente é o conceito de desejar permanecer no jogo e abandonar o mundo real. Esta é uma dúvida postulada pelo jovem Spencer, um rapaz tímido e com interesses pouco populares, mas que é rapidamente resolvida e desconsiderada, abandonando a potencial profundidade do dilema. Tendo em conta o aspeto fantástico do mundo fictício da ilha, e da felicidade e liberdade que proporcionou a certas personagens, faria sentido que houvesse uma maior hesitação na saída de volta para o mundo real.
No fim das contas, Jumanji: Bem-Vindos à Selva poderia ter culminado em dois filmes. Um deles, uma exploração mais séria da autoaceitação e do desenvolvimento psicológico de uma pessoa dependente do “irreal” e do escapismo, que lentamente aprende a libertar-se das correntes da ficção. A outra possibilidade, uma narrativa descontraída, com uma mensagem superficial (cada um pode melhorar algo em si mesmo) que ainda é capaz de ressoar com a audiência geral. A segunda proposta foi aquela que presenteou o mundo: uma aventura de seriedade moderada, que pode ser aproveitada ao máximo e relembrada sem que o espectador precise de analisá-la microscopicamente.
Título original: Jumanji: Welcome to the Jungle
Realização: Jake Kasdan
Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers, Scott Rosenberg, Jeff Pinkner
Elenco: Dwayne Johnson, Jack Black, Karen Gillan
País de origem: EUA






