Num tempo em que a capacidade de atenção é mais curta, a paciência cada vez mais escassa e os vídeos cada vez mais artificiais, é possível entender porque continuamos a avançar de encontro a conteúdos cada vez mais fugazes e desenvolvidos para caberem naquela tão importante proporção de 9:16.

Preocupamo-nos cada vez mais em tirar uma foto ou um vídeo vertical, em editar conteúdos para ficarem perfeitos, em estabelecer um padrão “instagramável” para a nossa galeria. A época do “tirar fotos porque significam, porque representam, porque transmitem algo” acabou e foi substituída por conteúdo vazio, “aestheticly pleasing” e enquadrado num retângulozinho perdido numa imensidão de tantos outros. Os lugares passam a estar fora de moda, as câmaras parecem nunca ter qualidade suficiente, a multimédia parece ter-se enquadrado numa estética de anúncio publicitário, que nos cega com filtros e alterações exageradas.

Com isto não se pode dizer que não estejamos a viver uma época bonita, com cada vez mais qualidade e desempenho no mundo da multimédia, mas por vezes sabe bem desligarmo-nos. Sair de toda esta artificialidade e voltarmos aos bons velhos tempos, onde a preocupação era aproveitar o momento, capturar o máximo de conteúdo, não para mostrar nas redes sociais, mas sim para mais tarde poder revê-lo e pensar “Uau, eu já estive lá, já experienciei isto”. Através de uma pequena imagem, poderíamos voltar a experienciar a beleza e as memórias que carrega, não apenas lembrar do quão boa ficou no feed.

O mesmo acontece com os vídeos que, quanto mais longos, mais detestáveis. Cada vez mais se priorizam capturas rápidas e parece que se tem medo de largar o botão de stop. Cada vez mais se veem influencers a planear todo o conteúdo, a posicionar cada elemento e a editar outros, como se a beleza do real não chegasse. Como se a própria natureza e seus fenómenos nunca fossem suficientemente dignos para uma filmagem de 3 segundos. Para ajudar a este vício, chega também a possibilidade de acelerar os vídeos. Mais uma vez, a beleza e essência de cada segundo escapa por entre os nossos dedos e é substituída pela vontade infinita de consumir todos os conteúdos, o mais rápido possível.

Por vezes, é necessário buscar hábitos do passado, onde tudo era mais simples e apreciado. Onde cada foto era impressa, guardada em álbuns e em caixas de papel que pareciam ser infinitas, mas que no fim eram as escolhidas para recordar, emoldurar e mostrar a todos que, estando ou não presentes no momento, apreciavam.

Apesar de esta “Era” ser maioritariamente digital e por vezes sufocante, parece restar um pouco de esperança. Esta surge na alma daqueles que se interessam pelo passado, que “ousam” descobrir o antigo, o mais “desengraçado”. Refiro-me às câmaras dos nossos avós, que estão arrumadas numa gaveta qualquer, CD´s e DVD´s de filmes mais velhos que nós (mas que são sempre os melhores) ou de memórias do nosso primeiro dia de vida, do nosso primeiro espetáculo na escola ou de momentos banais da nossa vida. Momentos em que não tínhamos noção do que era mais bonito ou do que era melhor para publicar, mas que sinceramente nos tornava mais autênticos e livres, saindo daquele frame sufocante.

De uma forma ou de outra, são as capturas por acidente, onde se veem sorrisos verdadeiros, ou os vídeos gravados sem ninguém saber, que tornam a passar nas nossas mentes, que voltam a ser tocados pelos nossos dedos, mas que, por mais engraçado que pareça, nunca verão o nosso feed. Todos os vídeos intermináveis, as fotografias espontâneas, os arquivos raw, os livros de memórias e os quadros na parede são os que irão capturar o nosso coração, os que iremos mostrar a quem nos ama e a quem amaremos, que vão ganhar lugar na nossa mente e provavelmente numa pasta qualquer (seja ela digital ou não). Verdadeiramente, e lá no fundo todos o sabem, que são estes exemplos que irão receber aquele tão desejado “like”. Desta vez, não será aquele coração vermelho perdido num mar de tantos outros, insignificantes e vazios, mas sim o que está dentro de nós.