Lançado a 5 de setembro de 2025, Double Infinity, da banda americana Big Thief, consolidou-se como mais um álbum notável entre os apreciadores de riqueza lírico-poética. As nove faixas folk-rock abordam, cruamente, a vulnerabilidade humana, espelhando momentos e sentimentos com os quais qualquer ouvinte se pode relacionar.
A primeira música é uma das melhores do álbum, Incomprehensible, explora o medo de envelhecer, que atormenta a sociedade contemporânea. Adrianne Lenker, a vocalista, apresenta-se como um farol de esperança, descrevendo o crescimento e passagem do tempo como algo belo e natural, através de uma grande mestria do metafórico “Wrinkle like the river, sweeten like the dew/ /How can beauty that is livin’ be anything but true?”
As palavras, normalmente descritas como poderosas, surgem na canção Words como superficiais e insuficientes “Words are feathered and light. Words won’t make it right”. Acompanhada por um instrumental estrategicamente etéreo, a artista revela a incapacidade de expressar pura e verdadeiramente o que sente e paira no seu subconsciente.
A faixa Los Angeles evoca memórias e a saudade de uma relação que permanece imutável. O amor, profundo e duradouro, transcende, nesse sentido, barreiras geográficas e temporais. Já em All Night All Day, é revelada uma nova faceta deste sentimento, o desejo. A banda procura combater o constrangimento que envolve a intimidade e atração física. Adrianne define o amor como um conceito aberto “Love is just a name”, que inclui tanto momentos doces como momentos dolorosos, refletido nas linhas “Swallow poison, swallow sugar/Sometimes they taste the same”. A abordagem distinta da mesma emoção, na terceira e quarta faixas, demonstra a capacidade de Big Thief de conservar a coesão narrativa e corroborar a complexidade do amor.
A voz simultaneamente crua e delicada da vocalista, o efeito de reverberação da guitarra, a complexa percussão e os drones eletrónicos presentes em Double Infinity, música que partilha o nome do álbum, espelha perfeitamente a essência da banda. É simbolizada a sensação de realização e crescimento que enlaça a passagem do tempo. Apesar da gratidão sentida, nos versos “Troubled mind, let me rest/ My life is full, my heart is blessed” é manifestada a vontade de alcançar tranquilidade.
No Fear constrói-se como uma viagem repetitiva e hipnótica. Surge como destruidora de convenções sociais, através da ideia de interconexão entre todas as pessoas “Everyone lives in everyone else / Everyone dies in everyone else”. Grandmother, com participação de Laraaji, é, como o título indica, dedicada à avó da cantora, permitindo a criação de um vínculo metafórico com a noção do envelhecimento, solidão e simplicidade do amor incondicional.
Happy with you, canção composta quase na sua totalidade por versos repetidos, assenta na felicidade inexplicável despertada pela presença e companhia da pessoa amada. Embora possa sugerir monotonia ou carência de originalidade, a repetição de palavras procura gerar um efeito de imersão no ouvinte, evocando intensidade e hipnose emocional.
O álbum termina, de modo excecional, com uma reflexão sobre a impossibilidade de saber quando um instante alterará o rumo de uma vida. How Could I Have Known recorre a elementos naturais, um traço predominante da banda, para enaltecer e romantizar as relações humanas.
Apesar da sublimidade lírica e temática, a banda manteve-se num campo já muito por eles explorado. A inovação e exploração criativa do álbum anterior, Dragon New Warm Mountain I Believe In You (2022), não foi aplicada em Double Infinity. Em vez disso, as faixas emanam familiaridade e receio de arriscar, com a valorização do acústico e estrutura musical que se afasta da ousadia que a alta fasquia, resultante de trabalhos prévios, exigia. Ainda assim, o sexto álbum de Big Thief consolida-se como mais um sucesso dos artistas que, mantendo a sua autenticidade e a capacidade singular de comover, encantam novamente os seus fãs.
Artista: Big Thief
Álbum: Double Infinity
Editora: 4AD
Lançamento: 5 de setembro de 2025



