Que Portugal é exportador de talento já todos nós sabemos. Inúmeros são os nomes sonantes do futebol mundial que começaram ou tiveram passagem pelos relvados do nosso país. O nível competitivo dos vários campeonatos nacionais não é, de todo, o mais apelativo quando o comparamos com a vizinha, Espanha, ou mesmo Inglaterra, que se destaca de forma evidente dos demais. Já para não falar do nível salarial, que não tem qualquer comparação quando falamos de uma Arábia Saudita, cada vez mais empenhada em importar talento.

A verdade é que, mesmo assim, muitos jovens atletas olham para Portugal como uma porta aberta para se formar ou até mesmo como um “trampolim” para os maiores palcos do mundo. João Félix, Enzo Fernández, João Neves, Rúben Dias, Vitinha ou, talvez o maior talento que alguma vez por cá passou, Cristiano Ronaldo.

Os mais experientes, veem, cá, uma luz ao fundo do túnel para relançarem as suas carreiras. Uns vêm, mas acabam por sair mais tarde, como Gonçalo Guedes, Viktor Gyökeres ou até mesmo Fábio Vieira. Outros acabam por se instalar e por cá ficar uns bons anos: Nicolas Otamendi ou Sebastian Coates.

Retomando a frase inicial. “Que Portugal é exportador de talento já todos nós sabemos”, mas o que realmente muda quando são as estrelas mundiais a decidirem voltar às suas primeiras casas?

Vale ressalvar que, talvez, a maior mudança seja mesmo o nível emocional do adepto. Seja qual for o clube que cada um apoie, com certeza, em algum momento, viu um atleta de qualidade superior aos demais ingressar no seu emblema.

Podemos falar de Rui Costa, que regressou ao SL Benfica com o mote de que assinaria o contrato antes de saber o valor que ia ganhar, segundo declarações de Luís Filipe Vieira. Na mesma moeda podemos falar de Pepe. Um jogador de qualidade inquestionável que representou o FC Porto e saiu rumo ao Real Madrid, em 2007. Contudo, 12 anos depois, quis vir continuar a escrever mais capítulos numa história que tinha ficado por acabar.

Ángel Di Maria, um nome incontornável quando falamos dos atletas melhor dotados tecnicamente de sempre do futebol mundial e, na minha opinião, um Top3 de melhores jogadores argentinos de sempre. Este nome com certeza tocou cada benfiquista quando foi anunciado, não só por ser um regresso especial, uma vez que o atleta recusou os milhões oferecidos por clubes da Arábia, mas também por ter uma qualidade fora do comum.

Falando do tema Audiências e Mediatização, há um atleta que se deve destacar: Kerem Arktürkoglu. Com a sua vinda para o Benfica, todos os jogos da equipa portuguesa passaram a ser transmitidos por canais turcos, algo inédito até então.

Neste sentido, é necessário abordar um regresso recente, não de um atleta, mas sim de quem pensa e idealiza o jogo e que já ganhou tudo o que tinha para ganhar. A viver há vários anos na sombra daquilo que em tempos passados conquistou, mas com um regresso a uma casa na qual esteve pouco menos de três meses. É o caso do homem com uma alcunha tão conhecida por esse mundo fora e que, de resto, deu o título a este editorial: José Mourinho.

Antes da sua primeira passagem pelo clube da Luz, o setubalense começava a traçar uma história pouco conhecida por muitos. Adjunto de Van Gaal no Barcelona e, apenas, com um particular contra o Estrela Vermelha, em 1998, onde foi colocado à prova, depois do treinador holandês lhe ter entregado o comando técnico. Na altura, lançou para jogo um nome especial aos dias de hoje, Pep Guardiola, com quem, imagine-se, teve, talvez, a maior rivalidade que alguma vez existiu entre dois treinadores.

No dia 20 de setembro de 2000, entrou, pela primeira vez, na sala de imprensa do Estádio da Luz, acompanhado por João Vale e Azevedo, para ser apresentado como sucessor de Jupp Heynckes. Depois de 11 jogos e uma vitória por 3-0 no eterno dérbi da capital, o então Presidente, Manuel Vilarinho, anuncia o final da linha para o Special One. Agora, 25 anos depois, regressou às águias por mão de Rui Costa, para suceder a Bruno Lage.

A grande questão que se coloca é: o que realmente mudou com este regresso? Podia falar de resultados, mas faz mais sentido falar de mediatização.

Na sua apresentação, segundo o jornal ABola, estiveram presentes “15 jornalistas, 14 repórteres de imagem e sete fotógrafos”, referindo, ainda, que “os números refletem a dimensão do regresso de José Mourinho”. O mesmo evento prendeu, igualmente, a atenção da imprensa internacional. O jornal Record escreve que o “regresso ao Benfica suscitou interesse em todo o mundo”. De destacar a cobertura feita por jornais desportivos de renome mundial como a BBC, a Marca ou até mesmo a Gazzetta dello Sport. Estes factos só mostram como a chegada de estrelas renomadas dão ênfase na comunicação social ao nosso campeonato e, de certa forma, tornam-no mais atrativo.

Nas redes sociais, o mesmo não passou despercebido. No canal de Youtube do clube lisboeta, a apresentação do treinador contou com 190 mil visualizações e o vídeo relativo ao seu primeiro treino teve 167 mil visualizações. Números muito acima da média daquilo que é o habitual do panorama nacional, ultrapassando, até, as audiências do debate eleitoral da corrida à presidência das águias.

Na sua conferência de imprensa, no pós-jogo com o AFS, há, ainda, algo que podemos estranhar. No meio dos jornalistas portugueses houve espaço para enviados especiais de outros países. Tivemos jornalistas ingleses e italianos que quiseram vir marcar presença naquele que foi o primeiro momento em que Mourinho falou sozinho, desde o seu regresso. Diga-se de passagem, que não seria algo expectável, estivesse no lugar do Mou outro treinador de menor renome.

Este tipo de factos só mostram que são inúmeros os benefícios que tiramos da vinda ou do regresso de caras conhecidas internacionalmente. O futebol fica mais rico e o desporto ganha. A todos os níveis.