Há livros que são como um abraço quente em dias frios e, ao mesmo tempo, desafiam o leitor a olhar para o amor de forma menos óbvia, mais crua e surpreendentemente honesta. IcebreakerQuebrar o gelo apresenta uma história que guia esse envolvimento, num “enemies to lovers” irresistível. Longo é certo, mas prende a cada página.

“Era suposto parar para aproveitar o momento em que se está”.

Num cenário de inverno perfeito, a narrativa apresenta o cruzar de caminhos entre Anastasia, patinadora artística, e Nathan, capitão da equipa de hóquei, no rinque da Universidade de Maple Hilles. A localidade imaginária criada por Hannah Grace é o palco de todos os livros desta saga desportiva, em que o mesmo local rodeia um casal diferente a cada obra. Assim, a fictícia UCMH (University of California Maple Hills), partilha em todas as histórias uma linha em comum: uma intensidade que contrasta com um ambiente aconchegante e uma tática infalível, a escrita na primeira pessoa e o facto de conter o ponto de vista das duas personagens principais.

Este não é um romance para todos, principalmente para os apaixonados por uma literatura clássica e de vocabulário rico. É talvez para aqueles que procuram uma história que permita desligar das suas vidas e, ao mesmo tempo, aprender algo. Existe uma abordagem direta ao desejo e às relações. À medida que as páginas avançam, a história de Anastasia e Nathan desenrola-se de uma forma muito particular: começa pela atração física, pelo choque de personalidades e pela imperfeição. Anastasia, muito perfecionista e dedicada, vê-se a partilhar o rinque com a equipa de hóquei, numa situação em que Nathan se viu na obrigação de defender a equipa, pelo seu papel de capitão.

“Apaixonar-me pelo Nathan Hawkins não era algo que eu pudesse ter planeado”.

Neste despertar de sentimentos, é possível observar as personagens a ultrapassar diferenças e a transformar relações inicialmente superficiais em algo sólido e, no fundo, emocionalmente verdadeiro. O que começa como conflito de interesses e muitos desentendimentos, uma vez que a partilha de rinques significa menos tempo para ambas as equipas se dedicarem aos treinos, termina num final feliz impossível de não desejar. No entanto, este percurso surge sempre acompanhado de desafios e de um grande processo de aprender a confiar no outro.

Com a escrita de Hannah Grace, não há romances idealizados nem muitos dramas. Nesse sentido, o livro torna-se extenso e pode, para muitos, revelar-se massacrante e, para tantos outros, necessário. As cenas explícitas são várias e a descoberta por um relacionamento verdadeiro caminha de forma lenta na desconfiança, mas rapidamente impactante na entrega.

“Sempre achei que patinar seria o compromisso mais complicado da minha vida. Estava errada”.

As picardias entre Anastasia e Nathan tornam-se engraçadas, e o mais curioso é, de facto, ter o ponto de vista de ambos. Principalmente o de Nathan, uma vez que é pouco frequente a representação do sentimento masculino e da exposição das suas fragilidades e lados mais românticos e sensíveis. E, por mais picantes que algumas páginas sejam, em nenhum momento caem no desrespeito e no desconforto. Existe em ambos uma conexão ardente, sem pudores, mas sem que se torne completamente invasiva.

Icebreaker quebra não só o gelo, como também tabus, e revela-se repleto de reviravoltas emocionais e viciantes, com um final que conforta depois de tanta emoção. É, sem dúvida, um convite a descongelar corações e a aceitar que, por vezes, as melhores histórias surgem onde e quando menos se espera.