A peça foi conseguida graças à investigação jornalística de seis meses de Joana Pereira Bastos e Raquel Moleiro, e ao apoio do líder comunitário Rana Uddin.
Quase um ano depois da operação policial de 19 de dezembro de 2024, que encostou dezenas de imigrantes à parede no Martim Moniz, essas mesmas pessoas subiram ao palco do Theatro Circo. No dia 13 de dezembro, sob a direção de Marco Martins, a peça “Um Inimigo do Povo” integrou atores e não atores para a encenação de uma obra construída a partir dos testemunhos e biografias destas pessoas, agora envolvidas no elenco.
“Será que a estrutura do conflito pode explicar as coisas extraordinárias que nos acontecem? O conflito não é uma lei da natureza, mas uma forma de perceber a humanidade através da divisão. E, dentro dessa divisão, está a raiz da violência. A invenção do Inimigo. Criar um inimigo é uma das tarefas mais sofisticadas que a humanidade já realizou – muito mais complexa do que ir à Lua.” (Lucrecia Martel in Amos Vogel Lecture, 2025)
Este é o primeiro parágrafo do pequeno livro dado ao espectador ao entrar no teatro. Escrito em inglês e português, contém uma série de fotografias da vida quotidiana de imigrantes em Portugal, da autoria de André Príncipe e Beatriz Banha. O livro ainda reúne uma compilação de testemunhos de vida, que também estão integrados na peça, dos dez imigrantes que fazem parte do elenco. No livro, afirma-se que, através destas histórias, “Vemos os imigrantes olhos nos olhos. Talvez pela primeira vez”.
A peça, com cerca de três horas, utilizou recursos cénicos como plantas, caixas, terra, luz fria e frenética e música que quase nunca cessa. “Um Inimigo do Povo” foi realizada em português, inglês, bengali e outras línguas, com legendas em português projetadas num ecrã na parte superior do palco.
Durante a peça é constantemente feita a pergunta “Why did you come here?”, à qual cada um dos protagonistas vai respondendo. A parte dos testemunhos que mais inquietou a audiência (revelada através dos cenhos franzidos e das mãos a cobrir a boca) ocorreu quando foi relatado “o jogo”, a perigosa passagem de país em país através de intermediários antes de sequer chegar a Portugal.
Com a plateia completamente cheia, a obra contou com uma ampla presença da imprensa, inclusive de meios globais como o El País. “Um Inimigo do Povo” emocionou o público, recebendo uma ovação em pé. Outra sessão ocorrerá às 16h do dia 14 de dezembro, também no Theatro Circo.


