O ano de 2025 trouxe mais uma adição à franquia de Knives Out, criada por Rian Johnson. Estreado na Netflix em novembro, Wake Up Dead Man marca o regresso do detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) para resolver um novo caso. A acompanhar Knives Out (2019) e Glass Onion (2022), a longa foi muito badalada positivamente pela crítica.

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A história gira em torno do assassinato aparentemente impossível do padre controverso, Monsenhor Jefferson Wicks (Josh Brolin), de uma vila em Nova Iorque. O principal suspeito é o doce padre adjunto Jud Dupenticy (Josh O’Connor), que foi apanhado, em vídeo, a discutir com o Monsenhor devido às suas atitudes insensíveis. A situação é complicada pelo grupo de seguidores leais e lunáticos de Wicks. Este inclui Martha Delacroix (Glenn Close), servente da igreja desde criança, e o seu amante Samson Holt (Thomas Haden Church), porteiro da igreja;  Simone Vivane (Cailee Spaeny), violoncelista confinada a uma cadeira de rodas devido a doença crónica; Lee Ross (Andrew Scott), autor de ficção científica fracassado; Nat Sharp (Jeremy Renner), médico que mergulha na bebida; Vera Draven (Kerry Washington), advogada, e o seu meio-irmão Cy Draven, político aspirante que se tornou influenciador radicalista.

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O elenco brilhante contribui para a criação do clima do filme, alternando entre momentos tensos, comoventes e cómicos. A inspiração em clássicos de mistério, como The Hollow Man (1935), de John Dickson Carr, e And Then There Were None (1939), de Agatha Christie, em conjunto com a construção sólida das personagens e a crescente intensidade da narrativa, resulta num crime intrigante que mantém o espetador cativado ao longo das duas horas e meia.

Outro aspeto que merece destaque é a cinematografia. Steven Yedlin apresenta um trabalho vislumbrante, contrastando a luz fria de Nova Iorque com a luz solar que invade as janelas da igreja. Este é um visual pouco típico no género de mistério, mas que eleva a longa além de uma simples produção de streaming.

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A religião é um dos temas centrais do filme, abordada tanto de forma reflexiva quanto satírica, incluindo até uma recriação da ressurreição de Jesus Cristo. A dualidade entre a fé e a lógica manifesta-se na relação de Blanc e Jud. O detetive, sendo ateu, junta-se ao jovem padre para resolver o mistério, criando uma dinâmica marcada pelo choque de culturas e visões do mundo. Jud, ao tentar limpar a própria reputação, esquece-se da sua missão original de ajudar as pessoas, o que o leva a abandonar o caso, algo que Blanc estranha profundamente. O filme relembra, assim, das necessidades comuns da sociedade, recusando a separação dos fiéis e hereges.

Dentro da temática religiosa, também é explorada a ideia de fações dentro da igreja e no país. No enredo, o grupo de fiéis liderado pelo Monsenhor Wicks funciona como uma tribo elitista, onde a vergonha, medo e culpa são usadas como ferramentas de controlo. Os ensinamentos de esperança e amor de Jud contrastam com a raiva de Wicks, que acredita que a fé está sob ataque e que é necessário lutar para se manterem relevantes. Esta abordagem é uma crítica evidente e pertinente à sociedade de atualmente, especialmente face ao crescimento do conservadorismo.

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Wake Up Dead Man reafirma Rian Johnson como um dos cineastas mais interessantes do cinema atual, ao combinar o entretenimento com comentário social. Mais do que um simples “quem foi”, o filme propõe a pergunta “porquê”, refletindo sobre poder, fé, fanatismo e empatia. Esta é uma boa nova entrada na franquia, pois permite expandir o universo para territórios mais ousados e provocadores.