O recente lançamento dos filmes Wicked abriu a discussão sobre a colorização no cinema. Atualmente, filmes tendem a usar cores menos vibrantes e sem vida, acompanhadas de pouco contraste de luz. É um fenómeno que tem sido visto também na moda, publicidade, arquitetura, entre outros. Esta homogeneização cromática levanta questões sobre a perda de identidade, expressão e diversidade visual.
A cor sempre foi uma ferramenta poderosa, que pode influenciar diretamente o humor, a atenção e a memória. Quando retirada ou suavizada, uma parte da sua capacidade simbólica é perdida. A crescente escassez nos média abre uma reflexão sobre como queremos representar o mundo, seja através de uma realidade filtrada e padronizada ou de uma visão ousada e expressiva.
Primeiro, precisamos de olhar para a história da cor na indústria do cinema. Até Herbert Kalmus aceitar o desafio de fazer filmes coloridos, as películas eram produzidas a preto e branco. Em 1916 foi criado o método de duas cores, onde apenas as cores vermelho e verde eram capturadas. Porém, foi apenas em 1932 que foi inventado o método de três tiras, permitindo, finalmente, a captura de todas as cores. Aos poucos, o processo, denominado de Technicolor, ganhou atenção em Hollywood, produzindo filmes icónicos como The Wizard of Oz (1939) e Singin’ in the Rain (1952).
Nos anos 50 apareceu o método Eastmancolor, mais barato e fácil de usar, que criou um visual atenuado, baseado nos amarelos e pretos mais leves. Este estilo, popularizado pela longa Bonnie and Clyde (1967), estabeleceu uma mudança no visual do cinema a partir dos anos 60.
Atualmente, com o uso do digital, o problema da captura da cor já não existe. Contudo, as audiências preferem ver algo mais simples e realista, seja isto uma história sombria de guerra, que indica cores escuras, ou uma história romântica, que indica tons suaves. O realizador de Wicked (2024), Jon M. Chu, respondeu à crítica da falta de saturação dos seus filmes dizendo que queria representar a realidade o mais aproximadamente possível, apesar de a história se passar num mundo fictício de fantasia. O realismo contemporâneo passou, então, a ser associado a tons apagados, refletindo um mundo que valoriza o controlo, previsibilidade e neutralidade visual.
Um grande fator que conta para este fenómeno é a ascensão do minimalismo moderno. Este estilo de design, e até de vida, tem obtido popularidade nesta última década. Aqui defende-se o “menos é mais”, onde o preto e branco são sofisticados e os brilhantes e vibrantes são extravagantes e infantis. No presente, o luxo é um visual discreto, nada como os visuais exuberantes de antigamente. A série Succession (2018-2023) demonstra bem o conceito moderno de “quiet luxury”, enquanto o clássico Funny Face (1957) mostra que algo sofisticado não significa algo sem pigmentação.
No audiovisual, existem, atualmente, duas abordagens. De um lado, os profissionais que adotam a dessaturação, fotógrafos de “estilo de vida”, principalmente de casamentos, que suavizam propositadamente o visual. Usam iluminação e tons leves com muito espaço negativo, de forma a deixar o sujeito respirar. Nesta perspetiva, encaixam-se também as produções audiovisuais que usam a iluminação com muitas sombras para se aproximar à realidade. Um exemplo altamente criticado é a última temporada da série Game of Thrones (2011-2019), onde a luz chega a ser tão escassa que não se consegue ver as grandes cenas de batalha. Todavia, filmes como The Batman (2022) e Joker (2019) usam a escuridão para criar uma experiência orgânica do sofrimento das personagens.
Do outro lado, ainda há muitas mentes criativas que resistem a esta onda. Alguns fotógrafos escolhem cores supersaturadas e impactantes como a sua marca, e produzem fotos que se destacam pela inclusão de todas as cores do arco-íris. Na cinematografia, os filmes de Wes Anderson, como The Grand Budapest Hotel (2014), e de Baz Luhrmann, como Moulin Rouge (2001), destacam-se pelo seu uso quase radical da pigmentação. Outros exemplos incluem o filme La La Land (2016), que usa diferentes paletas para representar as estações do ano, animações como Spider-man: Into the Spider-Verse (2018), e produções do estúdio independente A24 como Pearl (2022) e Midsommar (2019).
Hoje, socialmente, são precisos momentos coloridos que nos relembrem da beleza da vida. Num mundo que por vezes parece tão privado de cor, onde somos relembrados todos os dias das guerras e injustiças, uma explosão de cor é revitalizante. O fenómeno do filme Barbie (2023) é prova disso. Vestir rosa-choque e ir ao cinema partilhar esse momento com amigos provou-se uma grande fonte de alegria. A duologia Wicked teve um momento parecido, com os cinemas decorados de verde e rosa. Porém, enquanto Barbie apresentou um universo visual coerente e assumidamente colorido, Wicked gerou frustração por não ser capaz de o concretizar. Assim, apesar da dessaturação ser uma escolha estética válida, torna-se relevante repensar o uso da cor como uma ferramenta narrativa capaz de enriquecer, diferenciar e devolver identidade aos média contemporâneos.


