No futebol português, a arbitragem raramente passa despercebida. Todas as semanas, surgem lances que se transformam em casos polémicos, ocupando grande parte do espaço mediático e do debate público. Perante este cenário, impõe-se a questão: será este um problema exclusivamente nacional?

Entre os adeptos mais clubistas, é frequente a interpretação das decisões de arbitragem a partir da equipa que apoiam. Quando o próprio clube é prejudicado, surge a ideia de que é sempre “roubado”. Quando o rival é beneficiado, instala-se a narrativa de que é constantemente “levado ao colo”. Este padrão repete-se sobretudo em torno dos três grandes, FC Porto, SL Benfica e Sporting CP, contribuindo para uma perceção constante de injustiça e vitimização.

As críticas dos jogadores, treinadores, dirigentes e presidentes, assim como os comunicados emitidos pelos clubes, alimentam ainda mais o debate em torno das decisões de arbitragem.

Os meios de comunicação social intensificam este fenómeno. Os lances polémicos são bastante explorados nos programas desportivos, não apenas imediatamente após o jogo, mas ao longo de vários dias. Programas como o Pé em Riste e a Liga D’Ouro, da CMTV, dedicam várias horas à análise das decisões, com comentadores afetos aos três grandes.

A presença de ex-árbitros nestes debates acrescenta uma certa veracidade à discussão. No entanto, a divergência de interpretações acaba por aumentar a polémica, em vez de a esclarecer. Além da televisão, esta realidade estende-se à imprensa online e escrita, onde os casos não são interpretados de forma consensual pelos especialistas de arbitragem.

O crescimento das redes sociais intensificou este debate. A rápida disseminação de vídeos curtos, imagens e ângulos diferentes de um mesmo lance contribuem para diferentes leituras do mesmo caso, frequentemente baseadas em determinados frames, que dificultam a avaliação do impacto da infração no ritmo normal do jogo. A decisão do árbitro é julgada de um modo quase irracional, muitas vezes fora do contexto completo da jogada.

Antes da introdução do Video Assistant Referee (VAR), os árbitros eram obrigados a tomarem decisões instantâneas, sem recurso a repetições ou apoio tecnológico, aumentando a margem de erro. Na história do futebol, existem vários exemplos emblemáticos, como a Mão de Deus de Maradona, no Mundial de 1986, a Mão de Henry, auxiliar no golo de Thierry Henry, que levou a seleção francesa ao Mundial de 2010.

O VAR surgiu precisamente com o objetivo de minimizar erros evidentes, permitindo ao árbitro principal uma tomada de decisão mais informada, com o apoio dos auxiliares presentes na sala de videoarbitragem. No entanto, a introdução desta tecnologia contribuiu para um aumento do nível de exigência do público. Com mais recursos disponíveis, a tolerância ao erro diminuiu consideravelmente, aumentando a pressão e as críticas dirigidas à arbitragem.

O programa Juízo Final, da SportTV, no qual o Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol divulga os áudios do VAR nos casos mais polémicos de cada jornada do campeonato, com a análise de Jorge Faustino, pretende promover uma maior transparência. Contudo, já ocorreram jornadas em que alguns lances polémicos não foram abordados e outras em que o programa não foi transmitido, o que, a par das interpretações apresentadas pelo responsável do Conselho de Arbitragem, originaram críticas do público.

Nas redes sociais e em alguns órgãos de comunicação, o jogo jogado passa para segundo plano e os erros de arbitragem tornam-se o centro da discussão. Ainda assim, destaca-se o papel de programas como o Futebol Total do Canal 11, cujo foco incide na análise ao jogo e não nas decisões dos árbitros.

As falhas apontadas à arbitragem nacional levam adeptos a defenderem a presença de árbitros estrangeiros no campeonato português. No entanto, também acontecem falhas nas ligas de topo. Em Espanha, o Comité Técnico de Arbitragem reconheceu dez erros do VAR em 51 lances analisados da LaLiga 2024/2025. O Caso Negreira também levantou suspeitas graves sobre a integridade do sistema de arbitragem espanhol, acusando o FC Barcelona de realizar pagamentos acima de sete milhões de euros a empresas do ex-vice presidente do Comité Técnico de Árbitros da Federação Espanhola, José María Enríquez Negreira, entre 2001 e 2018.

Na Premier League, considerada por muitos como a melhor liga do mundo, também ocorrem erros significativos. De acordo com o Key Match Incidents (KMI), órgão independente responsável por avaliar as decisões mais importantes em partidas da liga inglesa, foram contabilizados 35 erros do VAR na época 2022/2023, 31 em 2023/2024 e 18 em 2024/2025. Desde o início da época passada, a liga inglesa criou a conta Premier League Match Centre no X (antigo Twitter) para explicar as decisões imediatamente após os lances. De qualquer modo, houve a necessidade de desativar os comentários nas publicações, mas as críticas continuam a propagar-se pelas redes sociais.

A discussão em torno da arbitragem não é exclusiva ao futebol português. Nos outros países também ocorrem erros e as decisões são contestadas, inclusive, nas competições internacionais. Medidas como flash interviews, que permitiriam aos árbitros explicarem as suas decisões, poderiam aumentar a transparência. Todavia, a diversidade de interpretações e os diferentes critérios aplicados pelos árbitros acabariam, provavelmente, por alimentar a polémica, em vez de a resolver.