Conhecidos pelo seu grande êxito Anna Júlia, a banda Los Hermanos atingiu o seu auge ao lançar o álbum Ventura, a 7 de maio de 2003. Sendo este o terceiro trabalho do conjunto, é neste momento que alcança uma sonoridade própria e se afirma como referência tanto em âmbito nacional como internacional, sendo considerado, até hoje, um dos melhores discos da música brasileira.

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Ao longo das 15 faixas, percebe-se uma dimensão mais íntima e diferente de tudo aquilo que tinha sido feito anteriormente pela banda, com arranjos mais contidos, porém intensos, e, por vezes, o uso expressivo do silêncio como elemento musical.  Ao explorar temas como autonomia, amor, envelhecimento e família, o conjunto aposta nestes recursos para retratar o quotidiano carioca e o seu lado melancólico.

Ao iniciar com Samba a Dois, o ouvinte é recebido com um ritmo contido, porém contagiante, que traz as mudanças da banda e a essência de todo o disco, funcionando como uma introdução pensada e crucial para a arquitetura musical da obra. Questiona-se, então “quem se atreve a me dizer, do que é feito o samba?” ao reconstruir o próprio género com riffs de guitarra, que se desenvolvem em arranjos que crescem e decrescem gradualmente. Assim, propõe-se que o samba não se baseia apenas em instrumentos e ritmos, nem pode ser limitado a uma só definição, mas que se trata de uma experiência cheia de sentimentos e conexão entre as pessoas.

Mais à frente, a faixa Cara Estranho traz à tona um rock mais forte, traço muito presente na identidade da banda ao longo dos anos. A bateria assume um papel mais marcante e a guitarra usufrui da distorção, acompanhada por um canto mais presente e gritado. Estes fatores contribuem e associam-se ao tema da música, que é uma reflexão sobre aceitação e autoconhecimento, ao retratar uma persona que procura constantemente por aprovação e, ao mesmo tempo, tenta encontrar a sua verdadeira identidade.

De seguida, O Velho e o Moço surge como um ponto de viragem do álbum, ao trazer uma proposta mais melancólica e contida, mas sem perder profundidade, construindo um equilíbrio perfeito entre balada e um rock mais brando. Apesar do questionamento sobre como as coisas seriam se o passado pudesse ser alterado, sobre os possíveis erros do futuro, a letra aborda a aceitação de si e da realidade, ao simular um diálogo entre um eu do passado (“o Moço”) e um eu do futuro (“o Velho”), representando diferentes estágios da vida.

Como se um ritmo envolvente e emocionante não fosse o suficiente, Conversa de Botas Batidas apresenta a interpretação de um dos membros da banda, Marcelo Camelo, sobre desabamento do hotel Linda do Rosário, no Rio de Janeiro (2002), onde dois amantes foram os únicos a não sobreviver. A estrutura da música conta com coros e metais que constroem um cenário emocionante e uma melodia marcante, que te prende do início ao fim. A canção cria a sua própria história ao basear-se num amor proibido, onde o casal decide pôr fim à relação e, simultaneamente, às suas próprias vidas

Não haveria melhor forma de finalizar o disco do que com a faixa De Onde Vem a Calma, que possui um arranjo mais delicado, focado no piano e no uso de sintetizadores, liado a um estilo de voz mais contida e íntima. Estes fatores são capazes de despertar diversas emoções e dar grande intensidade à música. A letra complementa essa sensibilidade ao representar a luta por se manter autêntico frente a um mundo hostil, e que, ao enfrentar as próprias inseguranças e viver de acordo com a sua essência, se alcança a verdadeira calma.

Em suma, Ventura é um grande marco na carreira da banda Los Hermanos, uma vez que é o momento em que o seu estilo musical se encontra e mostra-se amadurecido, o que lhes proporcionou grande prestígio de várias partes do mundo e demarcou a sua reputação de referência na música brasileira. Trata-se de um álbum contagiante e profundo, com letras e arranjos que fazem chorar, rir e dançar, e uma mistura inusitada dos géneros rock, bossa nova e MPB, resultando num trabalho lapidado que fez com que os membros do conjunto fossem, então, “coroados os reis de si”.