O espetáculo provocador gerou reações diversas.

Na passada segunda-feira, dia 5 de janeiro, Tiago Rodrigues apresentou a sua peça “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, no Theatro Circo. O espetáculo encheu a sala do anfiteatro no primeiro dia de apresentação em Braga.

Num folheto com uma pequena sinopse da peça, entregue ao público à entrada do espaço, o encenador esclarece que o espetáculo não foi feito para um público específico. “Não queríamos uma peça que apaziguasse, que confirmasse ou que partisse sequer do princípio de que sabe o que é que o público pensa e quais são as suas convicções.” Neste texto, Tiago refere ainda que o principal objetivo da peça é inquietar, e que os primeiros a sentir essa inquietação deviam ser as pessoas envolvidas com a produção da peça.

“Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” conta a história de uma família que possui a tradição de matar fascistas há mais de 70 anos. Numa época em que o país é regido por um governo fascista, cabe a Catarina – apesar de não se sentir capaz – a tarefa de matar o seu primeiro opressor. Surge então um grande conflito na família, que levanta questões sobre conceitos como fascismo, violência, democracia e rebeldia. O cenário é composto por uma casa de madeira e uma mesa, elementos que se vão movendo e adaptando aos diferentes momentos da peça.

No início, é revelado que todos os membros da família têm o nome “Catarina” – uma homenagem a Catarina Eufémia, uma ceifeira assassinada com três tiros por um fascista. Desta forma, “todas são Catarina”, comprometendo-se a fazer justiça por ela. Justiça feita através da tradição da família, que considera que todos os anos, um dos seus membros deve assassinar com três tiros “um fascista que vê uma mulher cair e não faz nada”.

O espetáculo caracteriza-se por duas perspetivas opostas: a perspetiva da família, que defende que o fascista deve morrer para que a liberdade e a democracia sejam asseguradas; e a perspetiva de Catarina, que considera que matar um fascista vai contra a liberdade. Defende não só que existem outras formas de combater o fascismo e de defender a liberdade, como também a ideia de que a justiça e a vingança não são sinónimas.

A peça provoca sentimentos de inquietação e desconforto à medida que os temas são debatidos entre as personagens. O espectador vê-se confrontado com diversas questões que não possuem claramente uma resposta certa ou errada.

No final da peça, a personagem fascista, assumindo o papel de líder, faz um discurso destilando ódio e raiva pelas minorias, apelando à confiança dos portugueses e agradecendo os votos que o fizeram chegar ao poder. No entanto, este discurso não foi bem recebido por parte da plateia.

O público proferiu gritos de protesto – “fascismo nunca mais, 25 de abril sempre” –  e manifestou o seu desagrado com o discurso. Foi, ainda, possível ver alguns espectadores, que não terão interpretado o discurso como parte da peça de ficção, a abandonar a sala, mostrando desagrado e desilusão.

Por fim, o mais reduzido número de espectadores aplaudiu de pé esta incrível forma de retratar debates e questões tão presentes na nossa sociedade atual. A peça foi tão marcante para os espectadores, que não conseguiam falar de outro assunto à saída da sala, destacando a genialidade da peça, atribuindo-lhe adjetivos como “brilhante” e “excecional”.