Tudo é mais belo no Natal. Para alguns.

Numa época em que as televisões se enchem de anúncios perfeitos, mesas cheias e sorrisos ensaiados, o Natal é apresentado como sinónimo de união, conforto e convívio. Porém, para muitos, dezembro não acolhe: amplifica o silêncio e torna mais evidente aquilo que falta.

É nesta altura que a solidão ganha voz. Regressam as memórias do que outrora existiu e já não existe— lugares vazios à mesa, risos que não voltam, laços quebrados pelo tempo ou pela distância. Para alguns, o Natal não desperta felicidade, mas lembra medos, perdas e ausências que permanecem.

Os avós que já partiram, os filhos que deixaram de aparecer, os tios que deixaram de se falar. Tudo se concentra num só dia. As dores acumuladas ao longo do ano encontram uma data que insiste em ser feliz, pelo menos na televisão, nas redes sociais e nas fotografias cuidadosamente escolhidas. A pressão para corresponder a esse ideal coletivo apenas intensifica o peso emocional.

Enquanto as luzes iluminam as ruas, há casas que permanecem às escuras. Há idosos esquecidos, pessoas isoladas, famílias marcadas por conflitos, fragilidades emocionais ou dificuldades económicas. Nem todos têm uma mesa cheia, nem todos têm um suporte familiar, nem todos conseguem celebrar.

Num dia em que a sociedade insiste em tornar tudo belo, importa reconhecer que nem todas as casas são iguais. E que olhar para além da porta — e para além das luzes — também faz parte do Natal.

Artigo escrito por Nádia Teixeira