O artista revela as suas inspirações, motivações e o processo criativo da sua nova obra.

Gonçalo Cravinho Lopes é contrabaixista e compositor, com um percurso decenal que atravessa o jazz e a música eletrônica e se arrisca no mundo da improvisação. Aliado a uma rica formação académica e de pesquisa artística contínua, apresenta uma abordagem inovadora, baseada em experiências e contacto com outros artistas.

ComUM: Já conta com 10 anos de carreira. Ainda se lembra do momento em que percebeu que se queria dedicar ao contrabaixo e à composição?

Gonçalo Cravinho Lopes: Lembro-me bem. Ainda estava a estudar no 3ºciclo. Tinha as aulas de currículo normal e andava no Conservatório Calouste Gulbenkian, em Braga. Tínhamos o ensino de música especializado e, no final das aulas, ia com os meus colegas tocar para umas salas e ficávamos lá a improvisar. Esses momentos que partilhámos serviram como escape e faziam muito sentido para mim na altura. A partilha musical com os meus colegas, a tentativa de criar música e o gosto que senti, levaram-me a decidir seguir a música. Lembro-me que jogávamos futebol e que acabei por decidir parar para ter mais tempo para estudar

ComUM: De que forma os seus estudos no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga, no Royal Conservatoire de Birmingham e na Universidade do Minho impactaram a sua abordagem musical? 

Gonçalo Cravinho Lopes: Tive a sorte de estudar em excelentes escolas, como o Conservatório Gulbenkian de Braga, o Royal Conservatoire na Inglaterra, e, numa última fase, também passei pela Universidade do Minho e pela Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, no Porto. Em todas as instituições tive o privilégio de aprender com ótimos professores e pessoas, com enormes carreiras e muita experiência, que se mostraram abertos a ajudar e a esclarecer dúvidas e pensamentos que surgiram durante a minha aprendizagem. Foram espaços que me moldaram bastante e que me deram a conhecer a história da música, bem como as suas bases teóricas e práticas.

ComUM: Houve algum conselho ou aprendizagem que o marcou ao longo do seu percurso e ao qual ainda hoje recorre?

Gonçalo Cravinho Lopes: Em específico, não. Acredito que passa por observar as pessoas que admiro, vê-las a realizar coisas que admiro e tentar colocar-me na sua posição, percebendo como pensaram ou no modo como chegaram aqui. Às vezes sinto que pôr-me no lugar dos outros e tentar perceber o seu percurso, me ajudou a chegar a esses sítios também. Ou seja, não houve uma frase ou conselho específico que me tenha ajudado mais que os outros, mas sim um conjunto de fatores e de exemplos.

ComUM: Nesse sentido, há músicos, compositores ou discos que o moldaram e inspiraram?

Gonçalo Cravinho Lopes: Vários artistas, mas prefiro não especificar nenhum. Aquilo que ouço tem muita importância, mas também tenho de destacar o contacto. Felizmente, nos últimos tempos tenho tido oportunidade de contactar, tocar e conversar com muitos músicos. Acho que esse contacto direto, a energia transmitida presencialmente e todos os colegas com quem trabalho acabam por ser uma inspiração que me toca mais do que discos que ouço ou contextos nos quais não estou inserido.

ComUM: Tem rotinas ou exercícios específicos para o desenvolvimento de ideias composicionais?

Gonçalo Cravinho Lopes: Tento ter uma rotina saudável e tocar todos os dias. Estudo diariamente e realizo exercícios de aquecimento e de prática de instrumento. Gosto de andar a pé e de ouvir música enquanto o faço, a maior parte do tempo desloco-me assim pelo Porto. A nível do contacto, realizo sessões com outros músicos. A minha rotina acaba por andar à volta do estudo, tocar com outras pessoas, ouvir música, fazer exercício e estar atento ao que está à minha volta. Com tudo isto, acabam por surgir muitas ideias.

ComUM: No passado dia 21 de janeiro, atuou no pátio interior do Gnration, onde apresentou a sua nova composição Caboz. Como foi a experiência e o processo criativo por trás da obra? 

Gonçalo Cravinho Lopes: Na verdade, o vídeo da atuação foi gravado anteriormente e editado para ser lançado no dia 21. Caboz é uma espécie de peixe muito pequeno que habita a costa portuguesa. A composição é baseada no livro “A Construção e a Desconstrução de um Padre”, escrito por Horácio Neto Fernandes. A personagem principal é Francisco de Caboz, o alter ego do autor, que recebeu esse nome por ser muito pobre, e por isso, na sua aldeia, apenas se alimentava de Caboz. Acaba por ser uma homenagem ao autor, à sua visão sobre o mundo, ao seu desapego material e a atenção aquilo que o rodeava. Li esse livro antes de fazer este som e fiz uma série de viagens que acabaram por marcar o processo. Lembro-me que quando fui a Nova Iorque, vi bastantes concertos que serviram como fonte de inspiração. Foi a minha primeira vez nesse grande centro de jazz, e recordo-me que voltei influenciado tanto pelo livro, como pelos concertos e pelas coisas a que tinha estado atento e que aconteciam ao meu redor. Já tinha também algumas ideias de experiências anteriores para esta peça, delineei um plano e improvisei à volta disso.