Dez anos após o seu falecimento, David Bowie permanece um símbolo da música e da moda, gravado nas memórias dos apreciadores de ousadia e talento. Tornou-se um ícone do rock britânico, construindo, ao longo de cinco décadas, um legado rico, marcado por uma inigualável criatividade artística.

Rolling Stone
Nascido a 8 de janeiro de 1947, em Brixton, Londres, teve uma infância envolta em referências musicais e cinematográficas, fruto da influência do seu pai, Haywood Jones. Acabou por desenvolver, por isso, desde cedo, uma forte ligação ao mundo da música, aprendendo a tocar o seu primeiro instrumento, o saxofone, que marcaria presença nos primeiros passos da sua carreira.
Inspirando-se em artistas musicais de renome como Elvis Presley e Little Richard, que o levaram a compreender o poder da voz e da música, inicia em 1962 o seu percurso no ramo artístico, criando, com apenas 15 anos, a banda Kon-rads. No mesmo ano, envolve-se numa luta que resultaria na dilatação permanente da pupila do seu olho esquerdo.

Rock And Roll Garage
Apesar desta condição ter afetado a perceção da profundidade da sua visão, acabou por se consolidar como um símbolo distintivo da sua aparência, espelhando a imagem de uma figura irreal e cósmica. Formou, acidentalmente, a estética perfeita que, mais tarde, se tornaria uma aliada na construção dos seus alter egos.
Após o insucesso da banda recém-formada, juntou-se aos King Bees e lançou o primeiro single “Liza Jane”, sob o nome artístico Davy Jones. Confrontado novamente com o fracasso, tornou-se membro das bandas Manish Boys, Lower Third e Riot Squad, continuando a experimentar diferentes estilos e a desenvolver a sua identidade musical.
Apresentando-se, finalmente, como David Bowie, lançou o seu primeiro álbum com foco no astronauta ficcional Major Tom, do qual se destaca a faixa “Space Oddity.” Esta foi publicada com antecedência, como single, de modo a coincidir com a aterragem da Apollo 11 na Lua. A música é não só uma prova do dom inegável do cantor, como também um símbolo da era espacial, retratando o fascínio humano pela exploração do desconhecido.
Financial Times
Na sequência deste triunfo, Bowie procurou expandir o seu universo imaginário artístico, dando origem a Ziggy Stardust, um alter ego, que personificava uma estrela do rock bissexual, andrógino e alienígena. Esta figura, oriunda de um futuro distópico, capacitou o cantor, de uma forma genial e inovadora, a compor letras que aprofundavam temas controversos para a época, como a sexualidade, a alienação sentida numa sociedade uniforme e a efemeridade da fama.
O alter ego é central no seu quinto disco, “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars”, um dos favoritos dos fãs, lançado em 1972, que conta com a emblemática canção “Starman”. É ainda neste ano que se assume publicamente como bissexual, um gesto certamente pioneiro e de grande bravura.

Music Non Stop
“Aladdin Sane” surge no sexto álbum e é uma versão evoluída, urbana e americana de Ziggy. Para sempre associado à ilustre pintura do raio vermelho e azul na face, transmite uma nova fase de glam, extravagância e arrojo no percurso de Bowie.

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“Diamond Dogs” emerge também com uma narrativa única e bizarra, aproximando-se do soul e do funk e baseando-se no livro “1984”, de George Orwell, em que o cantor assume a sua versão pós-apocalíptica. Durante este período, David Bowie vivia mergulhado em festas e relações conturbadas. Acabou também por enfrentar problemas de consumo de drogas, que influenciariam a sua próxima persona, Thin White Duke.
É em “Young Americans” e “Station to Station” que introduz este último alter ego, emocionalmente distante e frio, adotando um estilo completamente oposto, marcado pelo minimalismo e pela elegância. Retratava, assim, a sua luta contra a dependência e a sua relação cada vez mais complexa com a fama.

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Apesar dos problemas que lhe estão associados, foi por via destes alter egos que conseguiu desenhar um caminho de reinvenção artística e autoexploração. Transformava a sua vida pessoal em experiências sonoras e teatrais que atraíam milhares de fãs, completamente submersos num universo de personagens fascinantes, cuja estética, atitude e carisma os tornavam inesquecíveis.
Procurou, após ser consumido pela agitação norte-americana, um refúgio. Mudou-se para a Alemanha, onde desenvolveu a memorável trilogia de Berlim, com os álbuns “Low”, “Heroes” e “Lodger.”
Nos anos 80, o cantor britânico aventurou-se pelo pop, com músicas vibrantes e repletas de energia, das quais é exemplo o êxito internacional “Let’s dance”. Paralelamente, realizou um dueto com a banda Queen, “Under Pressure”, que se solidificou como um marco incontornável do rock. Já nos anos 90, arriscou-se com o jazz e a música eletrónica.

Rolling Stone
Os constantes metamorfismos ao longo da sua carreira impossibilitam a classificação de David Bowie como um artista de um só género musical. A sua essência reside na diversidade e na constante experimentação, que lhe concederam a alcunha de “camaleão do Rock”. Explorou ainda o mundo do cinema, participando em filmes como “The Man Who Fell to Earth”, “Labyrinth” e “The Prestige”.
Lançou, apenas dois dias antes da sua morte, o álbum Black Star, uma obra que reflete sobre a mortalidade e que acabou por se tornar uma verdadeira de carta de despedida para os seus fãs. O cantor combatia, em segredo, um cancro no fígado, que causaria a sua morte aos 69 anos, e encerrando um trajeto profissional de cinco décadas.
David Bowie foi um artista emblemático, que se distinguiu não só pelas conquistas na música, mas também pela revolução no mundo da moda, quebrando normas de género e tornando-se um símbolo da liberdade sexual. Ao assumir livremente a sua extravagância, com vestuário ousado e desafiador, difundiu a ideia de aceitação de quem realmente se é. No décimo aniversário da sua morte, recorda-se um músico inigualável, que certamente se orgulharia do impacto cultural e social que provocou.


