Raul Minh’Alma estreou-se como autor em 2011 com Desculpe Mãe, mas foi Foi sem Querer Que Te Quis, obra que viria a alcançar o topo de vendas em 2019. Publicado em 2018, este romance insere-se na literatura contemporânea portuguesa ao explorar a complexidade das relações afetivas e a forma como o amor raramente corresponde aos ideais socialmente construídos.

Raul Minh’alma

“Não sentimos amor, somos amor …e amar é uma viagem interior”.

A narrativa acompanha Beatriz, uma mulher marcada por sucessivas desilusões amorosas, e Leonardo, um jovem cuja primeira impressão dificilmente poderia ser mais desfavorável: rico, mimado e emocionalmente distante. O encontro entre ambos surge quase como inevitável, mediado pelo avô de Leonardo, utente no lar onde Beatriz trabalha, que assume um papel decisivo na aproximação das personagens.

Ao confiar-lhe a missão de ajudar o neto a reconciliar-se com o passado, o avô deixa também uma promessa: a receita para a felicidade no amor, guardada num envelope que apenas poderá ser aberto após a tarefa ser cumprida. Esta espera atravessa toda a narrativa e transforma-se num símbolo maior: o amor não como um acontecimento imediato, mas como uma construção que exige tempo, confronto e transformação pessoal.

Um dos aspetos mais interessantes da obra reside na desconstrução de modelos tradicionais associados ao romance. A diferença etária entre Beatriz e Leonardo, sendo ela a mais velha, rompe com a imagem ainda dominante do casal heterossexual convencional e convida o leitor a questionar ideias pré-estabelecidas sobre compatibilidade e perfeição. Mais do que um detalhe, esta inversão reforça a visão do amor como um território imperfeito e profundamente humano.

Ao longo da narrativa, evidencia-se a tensão entre amor-próprio e apego. O medo da solidão emerge como uma força silenciosa que condiciona escolhas e comportamentos, mascarando dependências emocionais sob a aparência de afeto. Sem recorrer ao dramatismo excessivo, o romance propõe uma reflexão sobre a necessidade de estar inteiro antes de se estar com o outro. Embora parta de premissas que poderiam facilmente cair no cliché, a obra procura afastar-se do desfecho previsível, privilegiando não aquilo que se deseja, mas aquilo que, por vezes, se revela inevitável.

A escrita caracteriza-se pela simplicidade e fluidez, fatores que tornam a leitura rápida e acessível. Se, para alguns, esta linguagem poderá aproximar-se de um registo familiar dentro do género, para outros será precisamente essa suavidade que facilita a ligação emocional à história.

Foi sem querer que te quis pode não surgir como uma obra absolutamente surpreendente, mas revela uma assinalável capacidade de cativar. Mais do que um romance, apresenta-se como um convite à reflexão sobre a forma como se ama e sobre as expectativas projetadas no outro: o que tem de ser, tem muita força.  Não sendo um favorito incontestável, está longe de ser descartável, posicionando-se antes como um reflexo da literatura portuguesa atual: acessível, emocional e atenta às inquietações das novas gerações.

“Não tenho pressa. Talvez porque já sou feliz no amor”.