Amar um lugar que nos cansa
A vida citadina costuma passar despercebida. Ficamos envolvidos na repetição dos dias, no movimento constante, habituados ao caos que está em cada rua que passamos. A familiaridade dos trajetos diários e das caras desconhecidas costuma ser o suficiente para criar uma sensação inicial de conforto. Contudo, essa calma – essa ideia de que ninguém nos vê – quebra-se rapidamente com o som repentino de uma buzina, seguida de muitas outras.
Nos trajetos diários, o caos está presente: nas horas passadas no trânsito, nas ruas maltratadas ou no barulho que parece não desaparecer, até mesmo nas horas de descanso. O trânsito ocupa horas. Entre paragens longas e avanços curtos, o tempo torna-se cada vez mais pequeno e instala-se a sensação de estar a desperdiçar partes inteiras do dia. Correr constantemente contra o tempo, que parece distorcer sempre que se olha para um relógio para perceber se ainda se chega a tempo do jantar. É nesse momento suspenso que surgem pensamentos banais, como a roupa ainda por estender, esquecida no meio da correria.
Na aparente monotonia da vida citadina, são estes pequenos detalhes que expõem a confusão diária. Revelam que a cidade sonhada pode, afinal, fazer-nos sentir isolados no meio de tantas pessoas, cada vez mais individualistas. Preocupações domésticas, casas desgastadas, luzes acesas a noite toda e ruídos persistentes formam um retrato silencioso de uma cidade que nunca abranda, e de quem tenta, todos os dias, acompanhar o seu ritmo.


