O dia pretende promover a tolerância, o respeito e a preservação do património cultural e linguístico dos vários povos do mundo.
Este sábado, 21 de fevereiro, comemora-se o Dia Internacional da Língua Materna. Este dia foi criado na 30.ª Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), por iniciativa do Bangladesh, em 1999. Através desta celebração, pretende-se sublinhar a importância da diversidade cultural e linguística.
Estudar num ambiente que utiliza um idioma diferente do próprio é uma experiência tão complexa quanto diversa. O ComUM teve a oportunidade de falar com três alunos da Universidade do Minho, cuja língua materna não é o português, para compreender a sua experiência.
Enquanto um estudante nacional na licenciatura paga 697 euros de propinas anuais, um estudante internacional, não oriundo dos países CPLP, paga 6500 euros. Muitos destes estudantes recorrem a cursos de português da universidade para poderem acompanhar as aulas e conseguir comunicar como os falantes cuja língua materna é o português. Estes cursos têm ainda um custo acrescido, dependendo do nível e horas por semana, que varia entre os 105 euros anuais e os 380 para alunos internos.
Chaima Badri é natural da Tunísia e residente em Portugal há dois anos e meio. Inicialmente começou por aprender português com a BabeliUM (Centro de Línguas da Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas da Universidade do Minho). “Comecei a avançar e a praticar mais a língua. Passei diretamente para o B1, e depois continuei até ao B2. Mas a aprendizagem foi tudo com a prática e com a comunicação com as pessoas.”
Estudar numa instituição portuguesa implica, por vezes, ser avaliado em português, mesmo para os alunos que não dominam o idioma. “Verdadeiramente, não sinto que tivesse sido prejudicada, porque eu esforço-me e não tive más notas”, afirma Chaima. Acrescenta ainda: “Nas avaliações, eu preparo-me porque, mesmo falando, eu não tenho a gramática perfeita, não sei escrever muito bem. Eu aprendi na rua, aprendi na padaria, no café, então é normal ter alguns erros de conjugação. Era preciso ter muita atenção, muita concentração. Era um esforço na parte gramatical porque era muito, muito difícil.”
Outro tipo de estudante internacional é o aluno de Erasmus. Pela proximidade linguística, muitos estudantes de países cuja língua tenha ascendência românica escolhem Portugal como o seu destino preferido.
Iria Valero, natural da Galícia, iniciou a sua mobilidade no primeiro semestre deste ano letivo na UMinho. “Sendo a minha língua nativa o galego e sendo este um idioma tão próximo do português, pensei que mais ou menos poderia entender e fazer com que me entendessem. No entanto, não foi assim tão fácil, já que havia pessoas que falavam com um sotaque muito fechado e não conseguia entender nada.” Iria relata que lhe foi permitido realizar as avaliações na sua língua materna: “Os docentes foram muito flexíveis em relação ao idioma. No máximo, a única coisa que sinto que me prejudicou foi não me ter integrado tanto quanto gostaria, já que fiquei com as pessoas que já falavam espanhol e não falei tanto com pessoas que falassem outros idiomas.”
Porém, nesta área, evidencia-se uma enorme diferença entre a experiência de aprendizagem no ensino superior face ao ensino obrigatório, tanto a nível de flexibilidade como de recursos. Estudos revelam que 80% dos alunos estrangeiros cuja língua materna não é o português, não estão inscritos em Português Língua Não Materna (PLNM). Outra das grandes preocupações reveladas no relatório sobre o estado da educação é a integração dos alunos estrangeiros.
Alejandro Rodríguez é aluno da licenciatura de Relações Internacionais. Venezuelano e dominicano, frequentou a disciplina de PLNM no secundário. Ao falar com o ComUM sobre a integração e efetividade da disciplina, constatou que “foi difícil, no início, particularmente devido à barreira idiomática, pela qual não me pude relacionar como eu desejara com o resto dos meus colegas ou amigos, porque simplesmente não entendia o idioma. Institucionalmente, para além dessas aulas PLNM, não tive realmente um apoio sistemático para a minha integração.” “Considero que a contribuição das aulas de PLNM para o meu domínio da língua não teve um impacto tão significativo, porque o português que aprendi foi essencialmente através dos meus colegas, por prática própria e conversas que tinha”, acrescenta Alejandro. Apesar disto, o estudante admite que o programa possa ser mais útil para quem não tem qualquer tipo de proficiência na língua.
Porém, isto não significa que PLNM seja inútil. “A diversidade e a boa disposição, sobretudo juntar tantas pessoas de origens diferentes que estavam dispostas a ser amáveis e carinhosas, fez com que as aulas fossem muito mais suportáveis. As professoras de Português Língua Não Materna nesses dois anos foram pessoas muito bem-dispostas e muito amáveis, considero-as quase como família; realmente fizeram um trabalho excecional.”
Contudo, nem todo o sistema educativo tratou estes alunos com o mesmo empenho e empatia. Alejandro partilha a sua experiência: “Nas disciplinas que implicam redação, apresentações, trabalhos, a barreira do idioma é bastante difícil de superar. E se não estivermos dispostos a fazer a maior parte do trabalho de forma autónoma, não há grandes avanços na disciplina, e creio que os professores não foram de todo empáticos na minha situação. Exigiram-me o mesmo que exigiam aos estudantes portugueses. No final, resultou bem para mim porque me tive de adaptar de qualquer forma, mas sinto que o processo foi um pouco forçado e violento.”
Uma experiência universalmente stressante para os alunos do secundário são os exames nacionais. Alejandro destacou que o sistema não reflete as realidades e necessidades de todos os estudantes, ignorando que há quem não tenha o mesmo domínio do português “Transportar as palavras do idioma próprio para o português é particularmente difícil, e não há apoio suficiente, nem de uma forma estável, para enfrentar essas dificuldades. Há pessoas que conheço para quem a pressão académica de não poder estar ao nível desde o início, para tirar as notas suficientes, foi completamente desastrosa, porque os critérios de avaliação também não favorecem os estudantes estrangeiros.”
A avaliação para a entrada ao ensino superior é rígida. Não existem examinadores ou critérios flexíveis, cursos intensivos acessíveis a todos os níveis socioeconómicos, nem associações de apoio à mobilidade, como a Erasmus Student Network (ESN), no nível de educação que pretende ser a base para a vida dos alunos. “Creio que é um bom ponto de partida (para melhorar o sistema) é humanizar as disciplinas e desprender-nos deste velho sistema que não só oprime as pessoas que não compreendem o idioma e não conseguem superar a barreira idiomática, mas que também oprime os próprios portugueses. É hora de fazer uma mudança a esse respeito, porque a educação é, fundamentalmente, a atividade mais importante que temos”, disse Alejandro ao ComUM.


