À medida que a água sobe e o vento arranca telhados, Portugal descobre duas realidades paralelas: um Estado em situação de calamidade e uma sociedade em estado de comunidade. Entre casas destruídas e estradas cortadas, as tempestades Kristin, Leonardo e Marta transformaram o país num mapa de ruínas, mas também num mapa de entreajuda.

Desde o início de fevereiro, a Proteção Civil tem registado milhares de ocorrências relacionadas com o mau tempo, envolvendo dezenas de milhares de operacionais em todo o país. São números que condensam inundações, deslizamentos, quedas de árvores e estruturas, estradas e linhas ferroviárias interrompidas. Há mortos, feridos e milhares de pessoas obrigadas a sair temporariamente de casa.

Apesar de o país estar, tecnicamente, em desagravamento, a normalidade ainda está longe. Em dezenas de concelhos, sobretudo no Centro e no litoral, a situação de calamidade manteve-se para garantir apoios e mecanismos excecionais de resposta. Os caudais do Mondego e do Tejo começaram finalmente a descer, mas as autoridades permanecem em alerta em quase todas as grandes bacias hidrográficas, do Minho ao Guadiana. Em localidades ribeirinhas, como a Ereira, em Montemor-o-Velho, a água continuou durante dias a cercar casas e estradas, acessíveis apenas por embarcações, com moradores exaustos ao fim de semanas de sobressalto. Na Lezíria, o Tejo regressa devagar ao leito, deixando para trás campos submersos que vão precisar de semanas para secar.

O mapa da catástrofe é desigual e, ao mesmo tempo, previsível. As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e o Alentejo concentram grande parte das ocorrências e dos danos, desenhando, mais uma vez, a geografia da vulnerabilidade: margens de rios transformadas em zonas industriais, bairros construídos em leitos de cheia, taludes instáveis sacrificados ao alcatrão. Não foi falta de avisos, nem de relatórios técnicos, nem de planos de emergência cuidadosamente arquivados. Foi, sobretudo, excesso de confiança na ideia de que o “excecional” não aconteceria. Num país onde o próprio Relatório do Estado do Ordenamento do Território identifica mais de 26 mil edifícios implantados em áreas suscetíveis de inundação, muitos deles em leitos de cheia ou zonas ribeirinhas urbanizadas, não é surpresa que as cheias se tornem catástrofes.

Mas, enquanto o país oficial contabiliza prejuízos, o país oficioso organiza-se. Em Leiria, depois da passagem da Kristin, centenas de voluntários de vários pontos do país responderam ao apelo da autarquia para limpar ruas, desobstruir o percurso Polis junto ao Lis e ajudar a erguer, à pá e à mão, aquilo que o vento derrubou em poucas horas. Plataformas de base comunitária, como o site tempestadesos.com e o mapa colaborativo sosleiria.pt, permitiram localizar em tempo real quem precisava de ajuda e quem a podia dar.

Também a hospitalidade se reorganizou à pressa. O programa “O Turismo Acolhe” juntou dezenas de unidades hoteleiras e alojamentos locais que abriram portas a famílias desalojadas, num esforço paralelo ao dos abrigos montados por autarquias. Em Alcácer do Sal houve eleitores que atravessaram a água de bote para conseguir chegar à mesa de voto, numa cidade ainda a meio caminho entre a limpeza da cheia e o exercício da cidadania.

É tentador chamar a isto “resiliência” e fechar o parágrafo. A palavra cabe bem nas legendas de fotografias com bombeiros enlameados e avós a segurar sacos de roupa doada. E é verdade que o Estado mobilizou milhares de operacionais, declarou a situação de calamidade, acionou planos de emergência e aprovou um pacote de medidas de apoio sem precedentes. Mas o elogio permanente da “resiliência” pode funcionar como uma espécie de anestesia: desvia o foco das causas estruturais do risco, para a capacidade quase infinita das pessoas em suportá-lo.

Quando comunidades inteiras passam semanas a limpar ruas, a organizar recolhas, a alojar vizinhos e a garantir, com trabalho voluntário, aquilo que os serviços públicos não conseguem assegurar em tempo útil, não estamos só perante gestos bonitos de entreajuda. Estamos perante um modelo em que são, recorrentemente, os mesmos a tapar, à sua custa, os efeitos de décadas de decisões falhadas em proteção civil, ordenamento do território, habitação e infraestruturas. Chamar a isso apenas “resiliência” é um nome simpático para um esforço que, nesta escala, não devia ser tomado como inevitável.

Seria injusto fingir que nada foi feito. Houve declaração de calamidade, planos ativados, milhares de operacionais no terreno e um pacote de apoios sem precedentes. Mas também seria cego ignorar que, de Leiria a Pedrógão, se repetem relatos de resposta lenta, insuficiente e distante, de decretos que chegaram tarde e de populações que sentiram, mais uma vez, que o Estado não estava onde devia estar. Quando, nestas cheias, tantos dizem que a comunidade chegou primeiro, a pergunta já não é retórica: como é que se garante que, da próxima vez, a resposta pública consegue, pelo menos, acompanhar o ritmo dessa solidariedade?