A artista faz do teclado ora um laboratório sonoro, ora uma pista de dança imaginária.

No dia 8 de fevereiro, pelas 18 horas, o gnration transforma-se num espelho que não se deve confiar demasiado e é lá que a compositora nova-iorquina apresenta Don’t Trust Mirrors, o disco que marca o seu reencontro com a eletrônica e a sua estreia em Portugal. Esta digressão europeia começou dia 3 de fevereiro, depois de duas noites esgotadas em Londres.

Após seis anos sentada no banco do piano, Moran decidiu levantar-se, literalmente e artisticamente. Entre sintetizadores e pianos que se deixam distorcer, o novo álbum é um mapa de regresso às raves, às pistas de dança e às identidades fragmentadas. Um disco onde a introspeção aprende a mexer o corpo, elogiado por publicações como Quietus, Clash, Pitchfork e Uncut.

Conhecida por nunca se deixar prender a amarras convencionais e por ter introduzido uma nova geração às técnicas de piano de Jonh Cage, Moran troca agora a imobilidade contemplativa pelo movimento, com a ajuda da coreógrafa Juri Onuki. A artista confessa que este trabalho nasceu também do confronto com os próprios medos: dançar, mover-se, deixar o corpo falar tanto quanto as teclas. O resultado é um álbum que não se limita a ser ouvido, que pede para ser sentido e entendido.

A artista pretende tirar a ideia do pianista imóvel e do piano enquanto objeto sagrado, defendendo que o movimento pode ser tão importante quanto o som, e é necessário ver a imagem de outro ponto de vista, com uma reflexão diferente. Talvez por isso ela nos diga para não confiarmos nos espelhos, porque eles devolvem uma imagem exatamente igual à qual estamos habituados a ver ou uma versão completamente distorcida, e precisamos de nos mexer e mudar para estilhaçar a imagem.

Moran iniciou a sua “carreira” cedo, começando a tocar piano com seis ou sete anos, e experimentando outros instrumentos daí para a frente, tendo conseguido o seu primeiro “trabalho” pago com 12 anos enquanto pianista acompanhadora. A partir do momento em que descobriu que podia ser paga a fazer algo que gostava e que lhe dava prazer, nunca mais parou.

Além da carreira a solo, Kelly Moran tem sido uma presença constante em palcos alheios, cruzando caminhos com nomes como Oneohtrix Point Never, FKA Twigs, Yves Tumor, Kelsey Lu, Helado Negro ou The Avalanches, e expandindo o seu universo criativo para o teatro e a arte multimédia, com a composição da banda sonora para Vanya e música para Medusa. A artista propõe uma experiência que vai para além da escuta, convidando o público a questionar imagens estáticas e a abraçar a mudança.