Chegou a época do Festival da Canção. Portugal decidiu este sábado os primeiros cinco finalistas para a grande final de 7 de março, com os últimos a serem selecionados na semifinal do próximo fim de semana. Esta é a 60.ª edição do concurso que já foi o palco de partida para centenas de músicos nacionais. Uma edição como esta merecia um ambiente de festa, tal como a 70.ª Eurovisão, mas parece que não é isso que se sente.

Depois de cinco certames circunscritos ao pequeno estúdio 1 da RTP, a estação pública fez algumas mudanças este ano. Para além de um estúdio maior, mas ainda não ao nível das arenas ao redor do país, após a vitória de Salvador Sobral, organizou-se uma prova de acesso a um artista oriundo de uma escola de música e há pela primeira vez um sistema de votação online. De qualquer forma, a antecipação não corre como antes nas veias dos fãs e da própria RTP, que revelou informações como a ordem de atuações só a poucos dias da primeira semifinal.

Dos 16 autores a concurso, 13 avançaram que não representam Portugal na Eurovisão caso vençam o Festival da Canção. No comunicado em conjunto de 11 destes artistas pode-se entender que a decisão tem por base a participação de Israel no palco internacional. “Foi com espanto que constatámos que não foi dado o mesmo destino a Israel, que está, segundo a ONU, a cometer atos de genocídio contra os palestinianos em Gaza” é uma das reações explícitas, partindo da ideia de que a Rússia foi banida da Eurovisão em 2022 após a invasão da Ucrânia.

Foi por este mesmo motivo que as emissoras de cinco países (Islândia, Irlanda, Países Baixos, Espanha e Eslovénia) se afastaram da participação no Festival Eurovisão da Canção deste ano. A decisão foi tomada após a assembleia geral da União Europeia de Radiodifusão (EBU) de 4 de dezembro, em que um voto sobre a participação de Israel, já há meses adiado, não se realizou depois de a maioria dos membros ter aceitado mudanças nas regras do concurso. Ora, esse novo código de conduta, justo para todos os participantes, nunca justificaria ignorar uma votação para afastar um país que, para além do motivo destacado pelos artistas portugueses, ainda violou regras na Eurovisão de 2025, ao ganhar o televoto com uma campanha desenfreada promovida pelo próprio Estado.

As polémicas em torno da participação de Israel não são recentes. Em 1979, quando a Eurovisão foi realizada pela primeira vez no país, a solidariedade para com os palestinianos foi o motivo do boicote da Jugoslávia (país que foi banido do certame nos anos 90, no auge da guerra civil). Segundo o The Guardian, em 2009, quando Israel foi representado por uma cantora israelita e uma palestiniana, vários artistas consideraram-no ser uma “máquina de propaganda” para apaziguar a sua imagem internacional. A mesma tática foi sendo usada pelo Azerbaijão enquanto tirava direitos aos arménios em Artsakh, usando a edição da Eurovisão que acolheu, em 2012, para promover o turismo como nunca de outra forma poderia fazer.

De qualquer forma, as decisões da EBU, que nesta altura nem se debate serem movidas por interesses, não deveriam motivar a perda de antecipação para uma competição nacional que não se resume, principalmente este ano, à escolha de alguém que represente o país na Europa. A música portuguesa deve sempre ser celebrada, especialmente quando “Deslocado”, vencedora do último Festival da Canção, está perto de ser a música da Eurovisão de 2025 mais ouvida no Spotify, com cerca de 119 milhões de streams (dez vezes mais do que a suposta vencedora do televoto).

Mesmo estando de fora este ano, Espanha continuou a apostar no seu concurso nacional, apenas criado em 2022. Com um claro maior orçamento, esta edição do Benidorm Fest contou com uma melhor produção e mais prémios que foram justamente atribuídos, embora as audiências tenham descido para quase metade em relação às do ano passado, de acordo com o El Confidencial. Também a Hungria, que deixou a Eurovisão após falhar a qualificação para a final de 2019, tem continuado a promover, com cada vez menos interesse, a competição que selecionava o seu representante.

No outro lado da balança encontra-se Itália, país que valoriza a sua música continuamente desde 1951 através do Festival de Sanremo. O certame italiano, que ainda faz o país parar, leva a participação no concurso, a que serviu de inspiração, como um objetivo secundário: o vencedor pode recusar ir à Eurovisão. Foi o que aconteceu no ano passado, quando Itália foi representada pelo segundo lugar do Festival de Sanremo. Apesar de tudo, um dos participantes da edição deste ano, Ermal Meta, confirmou ao L’Unione Sarda que, caso vença no próximo sábado, aceitará a ida à Eurovisão com uma música inspirada nas crianças de Gaza, numa forma tão legítima de protesto.

Com a possibilidade de também o Festival da Canção enfrentar um vencedor que não vá representar Portugal na 70.ª edição da Eurovisão, é ainda mais relevante salientar a importância que o festival tem tido por si só na história da televisão e da música portuguesa, ao longo de seis décadas. A RTP também organizou o festival em 2000 e em 1970, ano em que se juntou a um boicote de quatro países depois do empate nos resultados da edição anterior. Em 1974, a música vencedora, “E Depois do Adeus”, acabou por ser uma das senhas da Revolução dos Cravos e o Festival da Canção de 1980 foi o programa que inaugurou a transmissão regular a cores em Portugal.

“Entendemos que participar no Festival da Canção de 2026 não só é a oportunidade que tantos artistas portugueses desejam ter, como é também o seguimento de uma herança cultural que pretendemos honrar” é um dos pilares do comunicado dos compositores que recusam representar Portugal em maio. A realidade é que o festival continua a apresentar artistas e nesta 60.ª edição temos 16 músicas em português para celebrar.