Nesta produção assume-se que não existe qualquer problema em ser "filha da mãe", desde que esse título seja carregado com o devido orgulho.

O Cine Teatro João Verde, em Monção, acolheu na última sexta-feira, dia 13 de fevereiro, a comédia “Filhas da Mãe”. Com participação especial do apresentador Jorge Gabriel, o espetáculo prometeu e cumpriu a sua quota de risadas e boa disposição.

O espetáculo estrutura-se como um programa de televisão intitulado “A minha vida dava uma banda sonora”, em que somos recebidos por Ambrósio. Este autêntico animador de plateia, dotado de uma energia contagiante, ensina-nos a ser um bom público e a reagir adequadamente aos sinais que nos dá, preparando-nos para um programa incrível. O programa começa então com uma dança de introdução absolutamente hipnotizante. No entanto, só inicia verdadeiramente quando o apresentador Jorge Gabriel cede o seu lugar a Zira Antonieta, que surge em palco com o seu cabelo roxo, um vestido verde e saltos maiores que a sua própria animação, apresentando tudo sem papas na língua.

Como qualquer bom formato televisivo, a emissão conta sempre com pausas para as dançarinas e revela-se uma produção tão avançada que integra até um holograma de Jorge Gabriel criado por inteligência artificial. É neste cenário que entra em cena a Ariel na Terra (Crystal Royal), uma mulher que confunde a apresentadora ao revelar o desejo de ser travesti por sentir que tem um homem homossexual dentro de si, fruto da influência de um tio. Royal afirma ainda celebrar o seu aniversário no “melhor dia” do ano, o 31 de julho. A conversa aborda também a complexidade social da aldeia, onde a união entre homens e mulheres é aceite, mas a situação de uma mulher que se sente homem e se veste como mulher ao lado de outro homem torna-se a complicada.

A produção destaca-se pela sua elevada qualidade musical, focando-se sobretudo em músicas tradicionais portuguesas. Este ambiente serve de mote para o quadro “O gato comeu-te a língua”, no qual o entrevistado é desafiado a responder a todas as perguntas a cantar. No entanto, Zira Antonieta rapidamente percebe que gerir um programa não é tarefa fácil, especialmente quando a conversa começa a fugir do rumo pretendido. Felizmente, Ambrósio permanece atento e pronto a intervir sempre que a apresentadora se aventura por caminhos apertados ou fala do que não deve, tentando travá-la enquanto mantém o foco nas luzes, nas câmaras e nas reações do público.

Após um breve intervalo, a programação é retomada com uma nova apresentadora, Cristal, uma vez que ninguém vai à casa de banho sem ser imediatamente substituído. Segue-se o quadro “Ele e Ela”, onde conhecemos o casal Purificação e Mar Salgado; ela, curiosamente, assemelhando-se à apresentadora anterior, podendo possivelmente ser a sua prima. Devido ao nervosismo, ambos gaguejam de tal forma que parece necessário “bater-lhes” para funcionarem, assemelhando-se a um eletrodoméstico teimoso. Habituados a mal-entendidos, o casal nem acerta no nome da apresentadora.

A narrativa complica-se com o aparecimento da “loira da vida” dele, que poderá ser irmã de Ambrósio com tantas parecenças, enquanto os dançarinos mantêm o ritmo contagiante com figurinos deslumbrantes. Antes de terminar o segmento, Mar Salgado tenta ainda arranjar um número extra que não tem nada a ver com dança. Surgem então duas senhoras idosas que, apesar de caminharem de bengala e saltos altos, não devem ser confundidas com pinguins, pois não batem palmas com os pés. Estas preparam-se para o aclamado “baile dos artosos encalhados”, confessando que a sua maior preocupação é que a placa dentária caia durante o canto.

A verdadeira identidade de Ambrósio é revelada durante o intervalo, que ao vivo é bem diferente da televisão, descobrindo-se que é, afinal, Roberta. Deixando de dar sombra ao animador, Roberta vê-se em sérias dificuldades para terminar o programa, provando que o comando de “luzes, câmara, ação” nem sempre garante que tudo corra bem. A apresentadora de quem o público já sentia falta acaba por regressar para tentar iniciar um terceiro quadro, mas a tentativa é bruscamente interrompida pelo retorno de Jorge Gabriel. Perante o desfecho, Zira Antonieta abandona os seus saltos e troca-os por umas confortáveis pantufas.

Ao longo de todo o programa, a “macacada” é uma constante, mas por trás da animação esconde-se a história de Zira, que passou por muito na vida quando um antigo amor tentou tirar-lhe tudo,ou seja, a sua filha. Com figurinos descritos como icónicos ou irónicos, esta peça distancia-se do teatro silencioso tradicional, defendendo que quanto mais barulho houver, melhor. O espetáculo encerra com uma surpresa final que não se deve revelar. Fica o convite: “just take a chance” neste teatro.