O mundo perdeu Harper Lee há uma década, a 19 de fevereiro de 2016. A escritora faleceu aos 89 anos na sua cidade natal nos Estados Unidos da América. Ficou conhecida pela obra “Mataram a Cotovia”, vencedora do prémio Pulitzer em 1961, que está traduzida em 40 línguas e acumula mais de 45 milhões de exemplares vendidos.
A mais nova de quatro irmãos, Nelle Harper Lee nasceu a 28 de abril de 1926 em Monroeville, uma pequena cidade no estado do Alabama. Ainda na infância criou amizade com um vizinho que também se tornaria escritor: Truman Capote. Filha de um advogado, Harper Lee ingressou na Universidade do Alabama para estudar Direito, tendo abandonado o curso pouco antes do seu término. Passou ainda por Oxford antes de se mudar para Nova Iorque, em 1949, com o sonho de se dedicar à escrita.
Aos 33 anos, Harper Lee publicou aquele que seria durante mais de meio século o seu único livro. To Kill a Mockingbird (Mataram a Cotovia na edição em português da Relógio D’Água) tornou-se de imediato num clássico da língua inglesa. Narrado por uma menina de oito anos, Scout, é o retrato de uma sociedade americana racista durante a Grande Depressão dos anos 30.
Advogado tal como o pai da escritora, o pai de Scout fica a cargo de uma acusação realizada a um homem negro da cidade fictícia. Também ele incentiva a protagonista e o irmão a refletirem e não se deixarem levar pela onda de preconceito. Contudo, não é só pela coragem de publicar sobre racismo nos anos 1960 que o livro marca qualquer leitor. O facto da narração ser feita por uma criança, as suas aventuras com o irmão e a ideia de que os diálogos no livro mantêm características do sotaque rural do Alabama, mesmo na versão portuguesa, são características que prendem.
Apesar das ambições que a levaram a ir viver em Nova Iorque e de ter publicado vários textos em revistas, Harper Lee nunca revelou inspiração ou vontade para publicar um segundo romance. No documentário Harper Lee’s mysterious and reclusive story (2025), da PBS, a irmã, Alice Lee, relata que a autora chegou a confessar que, após o sucesso do seu livro de estreia e de um filme de 1962, “não tinha para onde ir, a não ser para baixo”. Esteve afastada dos jornalistas e da fama nas décadas seguintes, dedicando a vida entre Nova Iorque e a terra natal.
Em 2015, quando já se encontrava num lar há oito anos após ter tido um AVC, é lançado Vai e Põe Uma Sentinela, escrito antes do principal livro da autora. Esta história apresenta as mesmas personagens de Mataram a Cotovia, mas desdobra-se duas décadas depois, com Scout já adulta. A editora decidiu não fazer alterações ao manuscrito original, redescoberto em 2014.
Curiosamente, no passado mês de outubro a editora norte-americana HarperCollins publicou The Land of Sweet Forever (2025), uma coletânea de ensaios e contos encontrados postumamente no apartamento de Harper Lee. Algumas das histórias apresentam temas que a autora depois desenvolveu em Mataram a Cotovia e outras passam-se em Nova Iorque, onde viveu durante grande parte da vida.
O facto de ter obtido sucesso apenas com um enredo não poupou Harper Lee de ter sido condecorada pelos presidentes George W. Bush e Barack Obama. Além disso, em 2021 os leitores do New York Times consideraram “To Kill a Mockingbird” o melhor livro dos anteriores 125 anos. Contudo, a atualidade da obra também significou a sua censura em várias escolas ao redor dos Estados Unidos nos últimos anos. Mais do que nunca, a cotovia precisa de continuar a cantar.






