Seremos nós incapazes de apreciar a arte? Ou seremos simplesmente incapazes de lhe prestar atenção? Num tempo em que tudo nos chega em fragmentos, em que a velocidade substituiu a demora e a distração se tornou linguagem dominante, talvez o verdadeiro declínio não esteja nas formas artísticas que julgamos ultrapassadas, mas na nossa crescente incapacidade de permanecer diante delas.

A 24 de fevereiro, Timothée Chalamet afirmou, numa conversa em vídeo para a CNN/Variety, com o ator Matthew McConaughey, que não tem interesse em trabalhar em projetos ligados ao ballet ou ópera, porque “já ninguém se importa com isso”. A polémica, que rapidamente gerou críticas no mundo artístico, ganhou fôlego num período sensível para o artista, que se encontrava na corrida ao Óscar de “Melhor Ator”.

O que Chalamet apresenta como uma certidão de óbito parece ser, na verdade, um sintoma da dificuldade contemporânea em lidar com o tempo e a contemplação. Nesta era da economia da atenção, o algoritmo dita um ritmo de consumo frenético e fragmentado. O contraste entre a gratificação instantânea de um scroll infinito e a exigência de uma ópera de três horas ou do rigor silencioso do ballet é abismal. O nosso attention span tem sido sistematicamente encurtado, tornando o ato de contemplar algo que não oferece estímulos a cada cinco segundos, um exercício de resistência.

Por outras palavras, talvez o verdadeiro escândalo não seja alguém dizer que já ninguém quer saber da ópera, mas o facto de termos começado a aceitar que só merece atenção aquilo que cabe em segundos. Porque confundir esta nossa incapacidade de foco, com a irrelevância de uma forma de arte é um erro de perspetiva – o ballet e a ópera não estão mortos, nós é que parecemos incapazes de viver experiências que exijam entrega sem distração.

Ainda assim, os sinais contam uma história diferente da de Chalamet. Contrariando a ideia de um público em declínio, a Royal Opera House e o Teatro alla Scala, duas das mais importantes casas de ópera do mundo, têm registado um rejuvenescimento das suas plateias, graças a políticas de acesso inovadoras, nomeadamente bilhetes a preços reduzidos para jovens e à difusão digital dos seus espetáculos em alta definição.

Além disto, o sucesso de André Rieu, por exemplo, mesmo sendo criticado, indica que formas artísticas enraizadas na tradição clássica continuam culturalmente presentes e capazes de mobilizar audiências de massa. Em Portugal, a vitalidade de estruturas como a Companhia Nacional de Bailado ou o Teatro Nacional de São Carlos demonstra a persistência da procura pela experiência artística ao vivo.

Ora, esta procura pela arte presencial reside no que o digital, por definição, não consegue replicar – a vulnerabilidade do agora. No cinema ou nas artes digitais, o corte e a edição escondem a falha. Mas no ballet, na ópera, no teatro, que a mim me toca particularmente, a vivência é crua. A respiração pesada do bailarino, o esforço físico visível, o risco do erro técnico, o silêncio partilhado de uma plateia em suspenso e a vibração acústica que atravessa o corpo de quem assiste são o lembrete de que a arte, na sua forma mais pura, é um acontecimento irrepetível que exige a nossa presença por inteiro.

As performances de palco são um verdadeiro pacto de silêncio e atenção entre o artista e o público, que não permite o rewind. Numa cultura que privilegia o polido e o processado, este imperfeito humano torna-se, ironicamente, o elemento mais moderno e revolucionário que podemos consumir.

Considero importante refletir, mesmo assim, que o problema, por vezes, pode não estar na irrelevância destas formas artísticas ou na crise da atenção, mas na forma como foram sendo empurradas para o lugar do inacessível, do solene, do “não é para nós”. Durante demasiado tempo, a ópera, o ballet e até o teatro foram apresentados como espaços de código fechado – reservados a quem já sabe, já conhece, já pertence. Ou seja, o ponto também pode ser menos a falta de interesse e mais a falta de acesso e mediação.

Para mim, o certo é que se estas manifestações de arte ainda nos pedem silêncio, tempo e entrega, então continuam longe de estar mortas. A arte só morre se deixarmos de falar sobre ela, de a criticar e, acima de tudo, de a frequentar. Quiçá o mais urgente, hoje, seja precisamente voltar a aparecer.