The Big Lebowski, lançado em 1998, é o sétimo filme escrito e realizado pelos irmãos Coen. A comédia, que cruza o noir e o nonsense, tornou-se uma obra de culto pelo conjunto de personagens excêntricas, diálogos icónicos e uma intriga tão absurda quanto caótica, retratando a contracultura americana dos anos 90.

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Jeff Bridges, no seu papel mais icónico, interpreta o protagonista, Jeffrey “The Dude” Lebowski, um desempregado de Los Angeles que passa os dias a jogar bowling com os amigos e a fumar erva. A sua vida despreocupada é virada do avesso quando é confundido com um bilionário do mesmo nome, cuja esposa foi, alegadamente, sequestrada.

No início do filme, o Narrador não classifica “The Dude” como um herói – “até porque o que é um herói?”. Na verdade, Lebowski é o anti-herói definitivo, subvertendo a definição do protagonista convencional. Perante a série de equívocos desencadeada pela confusão da sua identidade, adota uma postura passiva e desinteressada, encarando o caos com uma resignação e humor desconcertante. Não busca a redenção ou a glória, mas é arrastado para uma aventura contra a sua vontade, depois de dois vândalos urinarem no seu tapete favorito.

Numa cidade de “tubarões”, satirizados no filme – do milionário “The Big” Lebowski ao barão da pornografia, Jackie Treehorn, envolvido no sequestro – “The Dude” quer continuar a viver descontraidamente à margem da sociedade capitalista. A sua filosofia, alcunhada pelos fãs de “dudeísmo”, rejeita a competição, a ambição e o conflito direto, promovendo a fruição dos pequenos prazeres da vida, dando origem ao icónico lema The Dude abides. Este estoicismo moderno, na verdade, é herdeiro do movimento hippie, dissolvido pelo neoliberalismo, que sobrevive na aparência e no gosto musical do protagonista.

The Big Lebowski

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As personagens secundárias não orbitam apenas em torno de “The Dude”, mas dão corpo e densidade à narrativa. No bowling, Lebowski tem a companhia de Walter (John Goodman) um intempestivo veterano de guerra, traumatizado pelo Vietname, que traz o caos a qualquer situação que o envolve, e Donny (Steve Buscemi), o amigo inocente e sempre desprezado, que falece, de forma trágica, de ataque cardíaco. Os irmãos Coen criaram personagens memoráveis com um par de cenas, como Jesus Quintana (John Turturro), um bowler excêntrico com quem rivalizam no salão, e o Estranho (Sam Elliott), um cowboy sempre sentado ao balcão, que descobrimos, no final do filme, ser o Narrador.

A narrativa de The Big Lebowski parece refletir, inicialmente, os elementos clássicos do noir: o homem errado, o mal-entendido, o enigma, a chantagem e a mulher sedutora. Porém, cada pista conduz a mais confusão e o mistério torna-se absurdo. A sátira nunca ganha densidade dramática. A sátira nunca ganha verdadeira densidade dramática, nasce da simulação da profundidade conspirativa para depois a esvaziar. A personagem principal não consegue romper com um ciclo de desentendidos caricatos, sendo raptado várias vezes ou apanhado em confrontos físicos, causados por Walter, como o duelo com os vândalos niilistas.

Mas, ao contrário do detetive clássico, “The Dude” nunca controla verdadeiramente os acontecimentos e não chega a concretizar um verdadeiro desenlace. O auge dessa desconstrução está na reinvenção da figura da femme fatale. Maude, filha do milionário Lebowski, contraria esse arquétipo, revelando-se desprovida da aura trágica que conduz o herói à perdição. Em vez disso, manipula a atração do protagonista, acusando o pai de uma fraude nunca comprovada, com o objetivo de engravidar sem estabelecer uma relação.

Do ponto de vista filmográfico, The Big Lebowski revela a assinatura visual segura dos Coen: enquadramentos meticulosos, movimentos de câmara fluidos, como os célebres planos que deslizam pela pista de bowling, e uma paleta que capta uma Los Angeles simultaneamente solar e decadente. As sequências fantasiosas de “The Dude” ainda acrescentam um tom algo surrealista ao filme. A narrativa, deliberadamente dispersa, reduz a tensão dramática e a resolução surge mais por esgotamento do que por clímax.

The Big Lebowski — IndieLisboa

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Apesar da receção pouco entusiasmada nas bilheteiras e na crítica aquando da sua estreia, The Big Lebowski afirmou-se como um dos filmes mais relevantes, do ponto de vista cultural, dos anos 90. A construção estética, a ousadia estrutural, a riqueza dos diálogos e das personagens – em particular, “The Dude” Lebowski e a sua forma de vida – consolidaram uma influência que ainda perdura da obra, com referências incessantes e uma devoção quase ritual dos seus admiradores.