Portugal, um dos principais destinos europeus quando falamos de futebol, tem-se afirmado também noutra área, com selo de distinção. A formação e o recrutamento de jovens talentos. A cultura futebolística no nosso país perdura há dezenas de anos e assevera-se como sendo já um traço característico do quotidiano dos portugueses. Além de um espaço de aprendizagem para quem pratica a modalidade, é, acima de tudo, uma “desculpa” que promove o convívio e a paixão pelo desporto entre os demais.

Talvez seja por isso que vemos, cada vez mais, talento a ascender aos grandes palcos nacionais e mundiais. Os jovens apostam continuamente na sua formação, o que, em alguns casos, resulta na realização de um sonho.

Desta vez, e recordando o meu editorial anterior, não falarei de quem para cá vem relançar a sua carreira ou volta ao seu clube de coração, anos depois. Opto por dar ênfase a quem em Portugal nasce e se ergue. Aos que passam de pouco conhecidos a desconhecidos por poucos. Aos que viram ídolos de clubes e fazem cá carreira, ou aos que cá se mostram ao mundo e saem para voar mais alto.

Portugal tem-se vindo a afirmar como uma das maiores escolas de formação de atletas. Por todo o território é raro não encontrarmos talento. A norte, com o Olival a ser o principal motor de promessas, mas também com Alcochete e o Seixal a revelarem-se como bons polidores de joias.

Segundo o mais recente estudo da CIES Football Observatory, que analisou atletas ativos em 49 ligas profissionais por todo o mundo, o SL Benfica leva a distinção de melhor academia de formação a nível mundial. O Top3 é complementado pela La Masia (academia do FC Barcelona) e por El Semillero (academia do River Plate). A Academia Cristiano Ronaldo do Sporting CP ocupa a quarta posição do ranking, consolidando a presença portuguesa no que diz respeito à sua excelência formadora.

Mas não basta apenas formar. Mais do que isso, é preciso abrir espaço e dar tempo para que os jovens vinguem as oportunidades. Neste sentido, tem havido uma criação crescente de competições para fomentar, precisamente, essa necessidade de espaços para os jovens competirem e evoluírem. Exemplos disso mesmo são a UEFA Youth League ou, talvez mais recente na memória dos portugueses, o Mundial Sub-17.

A Youth League, com a premissa de ser uma espécie de Liga dos Campeões dos mais jovens, tem tido participação recorrente dos clubes portugueses. A competição foi criada na temporada 2013/14 e, na primeira final, teve logo carimbo português. Frente a frente estiveram as equipas jovens do SL Benfica e do FC Barcelona.

Ao longo dos anos, a presença lusa em finais tem sido assídua, porém com algum azar à mistura. O SL Benfica conseguiu chegar até à prova de fogo por quatro vezes, tendo vencido pela primeira vez em 2021/22, com direito a um “chapa 6” em cima do RB Salzburg. O FC Porto precisou apenas de uma presença em finais para trazer para casa o troféu, numa partida travada entre os dragões e o Chelsea em 2018/19. O resultado acabaria por sorrir aos portugueses, com um placar de 3×1.

São vários os jovens que utilizam estas oportunidades como trampolim para chegar mais alto. Lembremo-nos de Diogo Costa e Vitinha, dois dos melhores jogadores do mundo nas suas posições e que, de resto, faziam parte da comitiva portista em 2018/19. O guardião continua por cá e tornou-se uma figura influente no futebol português, envergando a braçadeira de capitão do FC Porto e conquistando a titularidade da Seleção Nacional. Por sua vez, Vítor Ferreira, ou Vitinha, para muitos, venceu a Liga dos Campeões a atuar pelo Paris Saint German, fechou o pódio da Bola de Ouro e arrecadou a segunda Liga da Nações para Portugal, tudo na temporada transata.

Apesar de terem perdido a final de 2016/17, não posso deixar passar despercebida a agremiação benfiquista. No centro da defesa atuava o capitão de equipa, Rubén Dias. Hoje titular indiscutível no Manchester City de Pep Guardiola e na Seleção. Já na frente de ataque, um jogador que teve os seus altos e baixos, mas que encanta com a bola nos pés ao lado de Cristiano Ronaldo no Al-Nassr. É João Félix. Para além destes nomes, recorde-se ainda que atuavam na mesma equipa atletas de renome: Diogo Gonçalves, Florentino Luís, Gedson Fernandes, Jota e Ricardo Mangas (hoje a atuar no maior rival).

Foco virado para as últimas competições europeias e mundiais de seleções sub-17. O que ambas têm em comum? Foram as duas conquistadas por Portugal em pouco mais de meio ano.

Com uma equipa base já formada por Bino Maçães, a seleção das Quinas entrou em campo pela primeira vez a 19 de maio do ano passado, frente à Albânia. Num jogo de sentido único, os lusos golearam por quatro a seleção alvinegra. O mote estava dado.

Com alguns contratempos e alguns sustos, a verdade é que Portugal foi avançando até à final. Acabou na segunda posição do grupo A, venceu a Itália nas grandes penalidades e, a 1 de junho, teve pela frente a França no último desafio do torneio. A genialidade de Anísio Cabral desbloqueou o marcador, Duarte Cunha dobrou o placar e Gil Neves deu a machadada final nos franceses. Conclusão: Portugal sagrou-se pela terceira vez campeão europeu de sub-17.

Desta vez, nem foi preciso tirar o pé do acelerador. Exatamente 155 dias depois, Portugal voltou a entrar em campo, desta vez no Qatar e a contar para o Mundial Sub-17. O mote voltou a ser dado logo de início, com uma goleada de 1×6 frente à Nova Caledónia. Sete jogos depois, a seleção portuguesa voltou-se a ver na mesma situação. Presença carimbada na final frente à Áustria, com alguma sorte à mistura, diga-se. No final de contas, quem resolveu foi o suspeito do costume: Anísio Cabral. O jovem apontou o único golo da partida e assegurou, assim, a primeira conquista do campeonato do mundo de sub-17 para a seleção nacional.

No fim de tudo isto os jogadores portugueses “varreram” praticamente todos os prémios individuais possíveis. Romário Cunha, guardião do SC Braga, foi um dos obreiros da conquista lusa, tendo sido distinguido com o prémio de melhor guarda-redes do torneio. Pela formação minhota, continua a assumir a baliza do escalão sub-23 e a sua estreia pela equipa principal prevê-se complicada, dada a concorrência à posição. O mesmo não se pode dizer de João Aragão. Pouco utilizado no campeonato do Mundo, porém, já teve a sua estreia assegurada por Carlos Vicens e logo num grande palco. O jovem vestiu a camisola da equipa principal dos arsenalistas no duelo frente ao Crvena Zvezda, a contar para a Liga Europa.

Eleito o melhor jogador do Mundial, Mateus Mide assumiu a batuta do meio-campo luso. Começou a época como uma das figuras dos sub-19 do FC Porto e, após a sua exibição na competição, foi promovido à equipa B. Apesar da sua tremenda qualidade, Francesco Farioli ainda não estreou o jogador, apesar de o ter chamado para o estágio de inverno dos dragões.

Daniel Banjaqui foi um dos três atletas já lançados por José Mourinho na equipa principal do Benfica esta época. No Mundial, o jovem assumiu a titularidade indiscutível da ala direita. Outro suspeito nesta matéria é José Neto. Titular da lateral esquerda, tendo anotado quatro golos e duas assistências ao serviço da Seleção das Quinas. Esta época estreou-se no Estádio da Luz frente ao AFS.

O destaque maior vai mesmo para Anísio Cabral. Figura do jogo nas duas finais disputadas por Portugal. O jovem é já o diamante da formação das águias e é lançado, com regularidade por José Mourinho. Teve a sua estreia frente ao Estrela da Amadora. E que estreia, diga-se de passagem. O primeiro toque na bola foi para a direcionar até ao fundo das redes e levar a Luz à ebulição.

Portugal é cada vez mais um caso de estudo como “máquina de formar gerações de ouro para o desporto”. E esta geração de sub-17 claramente veio para ficar na memória de todos. Afinal, há uns meses eram conhecidos por poucos e agora são tão poucos os que não os conhecem.