O anúncio da Together Together Tour, de Harry Styles – se é que ainda se pode chamar a isto de “tour” – desencadeou uma onda de críticas que vão muito além da geografia dos concertos. Desde os locais escolhidos, passando pelos preços dos bilhetes e pela logística rígida imposta, muitos fãs questionam: até quando a música ao vivo continuará um luxo para poucos?

O facto é: os preços dos bilhetes para concertos estão cada vez mais altos. Mas isso tem correspondido a uma qualidade artística proporcional? E para quem é, exatamente, este mercado?

O mercado mudou e os números não mentem. Segundo a análise de 2024 da Pollstar, vivemos a “Era de Ouro” do lucro, mas o “Inverno” para a carteira do fã. Desde 2019, as receitas totais das 100 maiores digressões mundiais cresceram uns impressionantes 71%, atingindo os 9,5 mil milhões de dólares. O preço médio dos bilhetes atingiu o recorde histórico de 135,92 dólares, um aumento de 41,3% em relação ao período pré-pandemia.

O debate em torno do preço dos bilhetes não é atual. Em 1993, o vocalista dos Nirvana, Kurt Cobain, criticou Madonna por cobrar 50 dólares para os seus concertos. Na altura, os Nirvana cobravam entre 17/18 dólares. Ajustado à inflação, isso seriam cerca de 40 euros, hoje. Atualmente, 40€ é o preço de uma t-shirt de merchandising de má qualidade num concerto de arena, não o bilhete – mas isso é uma conversa para outro dia. Raros são os bilhetes de artistas internacionais que custam este preço.

O fenómeno atual está longe de ser um caso isolado. A média dos preços dos bilhetes para grandes tournées aumentou sistematicamente na última década – e muito rapidamente no último ano e meio – impulsionada por práticas como dynamic pricing e preços premium que disparam o custo final para os consumidores. Se os preços continuarem a subir e as pessoas continuarem a esgotar os concertos, as promotoras sabem que estão a dar luz verde para que as empresas continuem a abusar nos valores.

Por outro lado, sei que é necessário pagar aos trabalhadores e pagar o aluguer da arena/estádio em que vão atuar, mas será que o ordenado destes trabalhadores aumenta também?

É fácil culpar o sistema capitalista. Mas a cantora inglesa Olivia Dean provou que os artistas têm, sim, controlo.  Ao impor-se contra preços abusivos, mostrou que o valor do bilhete é uma escolha política do artista.

Confrontada com as críticas ao preço dos bilhetes e numa tentativa de controlar a narrativa, a equipa de Harry anunciou que um euro do dinheiro dos bilhetes iria para caridade. Mas um euro num bilhete de quase 500 euros acaba por ser uma piada. É uma esmola de 0,2% para mascarar margens de lucro que sustentam uma indústria que faturou mais de 9 mil milhões de dólares pelo segundo ano consecutivo.

A indústria vende-nos a ideia de sustentabilidade e eficiência logística como justificação para as residências fixas, como as 30 noites no Madison Square Garden ou as 15 datas concentradas em Amesterdão. Mas a matemática é perversa: o custo de deslocação não desapareceu, foi apenas transferido do camião da produção para o fã. Quando um artista decide não viajar, obriga milhares de pessoas espalhadas pelos vários países da Europa a pagarem voos e alojamento inflacionado. Inflacionado, porque os fãs aperceberam-se que os hotéis em Amesterdão perto do estádio subiram rapidamente os preços após o anúncio dos concertos. Em média, a “experiência” pode custar agora entre 400€ e 800€.

Depois de quatro anos de jejum, a equipa de Styles sabe que o FOMO (Fear of Missing Out) é uma arma muito poderosa. Estamos a chegar ao ponto absurdo em que jovens adultos contraem dívidas pessoais ou esgotam poupanças para uma experiência de duas horas. É preciso perguntar: em que momento é que a música deixou de ser um escape para se tornar um fardo de ansiedade bancária? Será que compensa? Mesmo perante estes acontecimentos os fãs acabaram por esgotar as datas em alguns sítios.

Além disso, há uma ironia cruel no título da tour Together Together. A marca Harry Styles foi construída sobre a ideia de inclusão e de um ‘porto seguro’ para os jovens. No entanto, ao praticar preços de 500 euros, o artista está a dizer que ‘estamos juntos’, mas apenas se tiveres o plafond necessário. Ou seja, acabou por usar a estética da Love On Tour, criada pelos próprios fãs, contra eles.

No fim do dia, a culpa não é só das empresas, mas também é nossa. Enquanto continuarmos a aceitar estes preços absurdos, pelo medo de perder o momento, estamos a dar liberdade para o encarecimento desta atividade, que devia ser um complemento e não um motivo de dívidas. Algo que devia entreter-nos torna-se um momento de stress e pânico.