Stereossauro apresentou a continuação da história de Tristana. Ana Magalhães volta a emprestar a sua voz para trazer a figura à vida. O universo Tristana, apresentado em 2023, propõe músicas eletrónicas com performance vocal de fado. A personagem feminina pretende ser a personificação da melancolia, da saudade e de uma sina triste. No entanto, em Tristana II explora-se outra faceta da personagem, um lado mais festivo, uma faceta libertina.
Após uma faixa de introdução sinistra, é apresentada a vibe principal do disco. “A Melhor Noite da Minha Vida” é uma canção alegre, sobre uma saída ao fim do dia. Tristana II tem um “som” muito mais leve do que se esperava.
Algo que imediatamente sobressai ao ouvido é a falta do trinar da guitarra portuguesa. Stereossauro é conhecido por usar samples de fados em faixas hip-hop. Neste álbum, o produtor fugiu à regra; mergulha de cabeça no estilo techno, com pinceladas de rave.
Até mesmo a voz de Ana Magalhães está diferente, com menos nuances fadistas. Estranhamente, esta forma de cantar mais pop encaixou muito bem no timbre de Magalhães. O ouvinte fica a conhecer zonas surpreendentes da voz da fadista. Destaca-se a performance na faixa “Baza Só”. Neste tema, por entre o som dos violinos e da batida, Magalhães atinge beltings insanos.
Tristana II traz uma temática pela qual muitos indivíduos passam, mas que não é tão representada na arte. É explorado o desejo de recomeçar a vida, de se ter nascido outra pessoa. Sobre a vontade de ser mais feliz, de fugir ao destino que vem com um nome tão pesado como Tristana.
Mesmo tocando neste tópico complexo, a continuação não parece ter a mesma profundidade que o original. Do drum’n’bass parece emergir uma certa superficialidade. Ao escutar estas nove canções mais recentes, fica-se com saudade da melancolia. Tristana II perdeu a sobriedade presente na sonoridade da primeira parte.
O único single de Tristana II até ao momento é “Martelo de Porcelana”. A poesia, tal como a das outras canções, é rica, criando imagens visuais fortes, como a de um martelo frágil que tenta partir a saudade. Porém, o instrumental ficou um tanto aquém. O refrão é um tanto imaturo, infantil, quase parece de pimba. A música teria saído favorecida com uma ponte ou uma outro.
As canções seguintes, “Coragem” e “Somos nós”, têm alguns momentos de destaque, uma pausa instrumental boa ou uma palavra marcante aqui e ali. No entanto, acabam por ser um tanto esquecíveis.
O projeto volta a ter mais consistência na sétima faixa. “O Meu Nome” volta a trazer o motivo musical da introdução, com teclas à Stranger Things a enriquecer mais a composição. A canção por vezes fica psicadélica, especialmente no pós-refrão. Em termos narrativos, a personagem parece finalmente aceitar quem é. A vontade de ser outra pessoa persiste, mas ficou amansada. Tristana pode sair do fado (música), fingir ser Feliciana, mas o fado (destino) não sai dela.
“Babujal”, a penúltima canção, entra mais a fundo na vida da noite e na diversão sem pensar no amanhã. A produção techno torna mais evidente a filosofia hedonista que a personagem tomou para a sua vida. Versos como “não venhas comigo, se tens medo do fim” reforçam ainda mais a mensagem.
O álbum termina com “Siga”, um final inteligente, onde a letra e o instrumental estão em sintonia. Por exemplo, assim que é cantado pela primeira vez o verso “vou-me embora na batida”, surge um beat drop intenso.
Tristana II é um disco que se sente. Lírica e produção estão em perfeita harmonia entre si. Tristana não seria a mesma sem a voz profunda de Magalhães, é difícil imaginar outra intérprete para a personagem. Stereossauro aproveita os seus dotes para construir canções animadas. O álbum enriquece a narrativa do universo fictício, ao mostrar “o outro lado da moeda”. Porém, fãs da primeira parte poderão não ter a flexibilidade para apreciar a continuação, pelo menos não nas primeiras escutas.
Artista: Stereossauro, Ana Magalhães
Álbum: Tristana II
Editora: Stereossauro Records (Artista Independente)
Data de Lançamento: 30 de janeiro 2026



