O entretenimento contemporâneo gosta de se apresentar como progressista, consciente e libertador. Fala de representação, de voz, de protagonismo feminino. Mas por baixo desse discurso persiste uma lógica antiga, quase intacta: o corpo da mulher continua a ser um dos recursos mais rentáveis da indústria. Não apenas como imagem, mas como “território” de exposição e manipulação.

Ao longo das últimas décadas, cinema, televisão e cultura mediática consolidaram uma linguagem muito específica: a do corpo feminino como espetáculo. Uma linguagem onde a nudez, a intimidade e até a violação de limites pessoais deixam de ser experiências humanas, sensíveis ou privadas, para se tornarem ferramentas narrativas e, sobretudo, produtos. O que é vendido como “coragem artística” ou “realista” esconde frequentemente uma estrutura de poder que decide quem é visto, como é visto e para quê. Uma estrutura historicamente dominada por homens, que raramente são colocados na mesma posição de escrutínio.

Um dos momentos mais reveladores deste fenómeno aconteceu em 2007, com a divulgação da sex tape de Kim Kardashian. O que noutro contexto seria encarado como uma violação grave de privacidade, foi rapidamente absorvido pela máquina mediática e convertido num fenómeno global. A intimidade deixou de ser privada e passou a ser conteúdo. Mais do que isso, passou a ser estratégia. A própria Kim Kardashian viria a reconstruir a sua imagem e a transformá-la num império, mas esse percurso não apaga o precedente que ficou, pelo contrário, reforça a ideia de que a exposição, mesmo quando nasce de uma invasão, pode ser monetizada.

Esta lógica não ficou confinada às celebridades. Foi institucionalizada em formatos televisivos que moldaram gerações de espectadores. Programas como o America´s Next Top Model não se limitavam a descobrir talento, ensinavam a olhar para indivíduos do género feminino de uma forma diferente. Episódio após episódio, mulheres eram avaliadas ao detalhe, submetidas a transformações físicas extremas e confrontadas com críticas constantes ao seu corpo. Na prática, tratava-se de um processo de desmantelamento da identidade, onde o corpo era simultaneamente matéria-prima e produto final. Enquanto isso, os homens permanecem maioritariamente fora deste circuito de exposição, ocupando com mais frequência o papel de júris, produtores, realizadores, ou seja, de quem observa e decide.

Na ficção contemporânea, a exploração não desapareceu, sofisticou-se. Séries como Euphoria são frequentemente celebradas pela sua estética e pela forma como abordam temas difíceis. Mas essa mesma estética levanta uma questão inevitável: quando a exposição do corpo feminino é constantemente enquadrada de forma estilizada, iluminada, quase coreografada, estamos perante uma crítica…ou perante uma nova forma de consumo? A imagem torna-se tão cuidada que o desconforto se dilui. O que deveria chocar transforma-se em algo visualmente apelativo.

E é aqui que a questão se torna mais profunda. Porque não estamos apenas a falar do que é mostrado, mas de como somos ensinados a olhar. O entretenimento não é passivo, treina o olhar coletivo e define o que é aceitável observar, comentar, desejar. Quando o corpo feminino é repetidamente apresentado como algo disponível, à câmara, ao público e ao mercado, essa disponibilidade deixa de ser questionada. E quem aprendeu a olhar assim passa a achar que esse olhar é normal e que tem direito a ele.

A tecnologia recente apenas expôs o que já estava enraizado. A proliferação de deepfakes, incluindo casos mediáticos que envolveram figuras como Taylor Swift, demonstra até que ponto a imagem da mulher pode ser apropriada sem consentimento e transformada em conteúdo. Mas isto não surgiu do nada, é apenas a continuação lógica de uma cultura que sempre tratou o corpo feminino como editável, manipulável e, acima de tudo, consumível.

O mais inquietante é a normalização. Já não parece estranho. Já não provoca reação imediata. A exposição constante criou habituação. O olhar tornou-se automático. E talvez seja aí que resida o problema central. Não na existência de imagens, mas na ausência de questionamento. Porque, enquanto o entretenimento continuar a aceitar essa lógica como natural, a linha entre a representação e a exploração permanecerá perigosamente difusa.

No final, a questão não é se o corpo da mulher deve ou não aparecer no ecrã. É sobre quem controla esse aparecimento e quem beneficia dele. Porque, enquanto essa resposta continuar a apontar para os mesmos centros de poder, o entretenimento dificilmente será um espaço de emancipação. Será, no máximo, uma versão mais polida de um sistema antigo: aquele que transforma mulheres em imagem e imagem em lucro.