Com a estreia da nova temporada da série Euphoria (2019-2026), reacendeu-se a discussão da estética versus a substância, um tópico persistente no cinema contemporâneo. Numa era dominada pela imagem, onde o impacto visual é imediato e constante, até que ponto pode o estilo substituir a imagem?

Euphoria ficou popular devido à sua estética única e inovadora, com um elenco brilhante, cinematografia colorida e trilha sonora intensa. No entanto, a história deixa muito a desejar, não apresentando um arco narrativo clássico, nem uma transformação duradoura ou uma lição que permaneça. Então, porque é que a continuamos a ver? Talvez porque, mesmo sem responder às questões narrativas mais básicas, a série consegue captar um estado de espírito em que tudo é intenso, imediato e excessivo.

O estilo cinematográfico é o caminho mais rápido para as nossas emoções, sendo a base da ressonância e da memória cultural. De acordo com um estudo publicado no Journal of Visual Culture, em 2023, o público processa imagens subconscientemente em apenas 13 milésimos de segundo, muito antes do diálogo ou lógica narrativa sequer serem registados. Isto significa que o estilo visual de um filme não se limita a criar o ambiente, mas escreve ativamente o seu percurso emocional.

Quando bem feito, a estética proporciona ao espetador uma experiência visceral e memorável. Quando recordamos filmes icónicos, lembramo-nos primeiro da sensação que uma determinada cena nos transmitiu. Realizadores e diretores de fotografia utilizam ferramentas estéticas específicas para formar uma ligação emocional com o público. Entre realizadores que tendem a inclinar-se para este lado estão: Wes Anderson, com os enquadramentos simétricos e cores pastel, Sofia Coppola, que aposta na sensibilidade minimalista e atmosférica, Baz Luhrmann, conhecido pelo excesso visual e frenético, e Tim Burton, cuja identidade gótica cria universos visuais altamente estilizados.

Se a estética é o que nos prende de imediato, a substância é aquilo que nos faz ficar. O cinema encontra a sua profundidade e significado duradouro na narrativa, no desenvolvimento de personagens e na coerência temática. Histórias estruturadas ajudam o cérebro a organizar informação, criando ligações emocionais mais complexas do que estímulos puramente visuais. Embora o impacto inicial de um filme possa ser guiado pela estética, é a sua substância que sustenta a reflexão, permitindo que a obra permaneça para além do momento em que termina.

Para algumas pessoas, conteúdo em vez de estilo é o ideal, consistindo geralmente numa história verdadeira e importante, com paletas de cores genéricas e diálogos longos e densos. Estes filmes normalmente são altamente respeitados, sendo grandes conquistas ao nível da escrita. Alguns exemplos incluem O Caso Spotlight (2015), de Tom McCarthy, e O Discurso do Rei (2010), de Tom Hooper, ambos vencedores do Óscar de Melhor Filme, que contam histórias envolventes, mas recorrem a uma estética discreta. Isto pode tornar a experiência de visionamento informativa ou aborrecida, influenciando a vontade de rever o filme.

A estética é a arte de proporcionar ao público uma experiência visual apelativa e a substância é a arte de proporcionar aos espetadores uma experiência significativa. Filmes que combinem harmoniosamente ambos tendem a ser os mais completos. Em longas como A Árvore da Vida (2011) ou Blade Runner 2049 (2017), o espetáculo visual coexiste com a reflexão filosófica.

As obras de Christopher Nolan demonstram bem esta combinação. Apesar de tenderem a ser visualmente impressionantes, com cenas de ação intensas e cenários épicos, os filmes mantêm uma boa base narrativa. Dunkirk (2017) é um exemplo claro, pois permite que o público sinta a tragédia da guerra, sobretudo através da imagem e som, sem abdicar de uma estrutura narrativa eficaz e interessante.

O cinema sempre foi, inevitavelmente, uma experiência visual. No entanto, numa cultura cada vez mais orientada para a impressão imediata, o risco não está no excesso de estética, mas na ausência de algo que a sustente. A ideia de que imagens bonitas são uma distração da narrativa séria ou de um argumento preguiçoso é redutora. Porém, o inverso também pode ser verdadeiro. O real poder do cinema reside no equilíbrio entre forma e conteúdo, porque, no fim, não são apenas as imagens que ficam, mas também aquilo que elas significam.