Se, para os adeptos, quantos mais jogos melhor, para os jogadores nem tanto. Com o calendário cada vez mais apertado, o futebol de elite atravessa uma fase de sobrecarga competitiva, em que a criação dos novos formatos europeus e mundiais reduziu significativamente os períodos de descanso dos atletas.

A introdução do novo formato do Mundial de Clubes, iniciado em 2025, com 32 equipas e disputado de quatro em quatro anos, representa um acréscimo significativo ao calendário competitivo. A competição ocupa, assim, um período tradicionalmente reservado ao descanso e à preparação da época seguinte, diminuindo o tempo de recuperação física e mental dos atletas. No ano passado, a realização da final four da Liga das Nações, disputada pouco antes do início do Mundial de Clubes, agravou ainda mais a compressão do calendário.

A reformulação das competições europeias aumentou igualmente a carga competitiva mínima dos clubes envolvidos. O antigo modelo da Liga dos Campeões e da Liga Europa, composto por seis jogos na fase de grupos, foi substituído por uma fase liga de oito encontros, com possibilidade de mais duas partidas no playoff de acesso aos oitavos de final para as equipas posicionadas entre o 9ºlugar e o 24º lugar. A Liga Conferência segue uma lógica semelhante, embora mantenha seis jogos na fase liga, contendo também um playoff. Em termos práticos, um clube que antes disputava seis jogos europeus antes da fase a eliminar pode chegar, agora, aos dez.

A situação agrava-se ainda mais com o Mundial de 2026, que contará com 48 seleções e 104 jogos. Além do aumento do número de partidas, a competição implicará deslocações entre três países anfitriões — Estados Unidos, Canadá e México —, diferenças de fusos horários e realização de jogos em altitude.

O problema não é apenas o número de partidas, mas a acumulação de minutos, viagens e intensidade competitiva ao longo de toda a época. As pausas para os compromissos internacionais surgem frequentemente como um fator adicional de desgaste, com vários jogadores a regressarem lesionados ou fisicamente condicionados das respetivas seleções. De modo a preparar o Mundial, nesta última paragem internacional, Portugal viajou para o México e para os Estados Unidos, o que, naturalmente, aumentou o desgaste físico, sobretudo pela altitude, as horas de voo e pela diferença horária.

Nesta Data FIFA, surgiram vários jogadores afetados pelo chamado “vírus FIFA”, expressão utilizada para designar os atletas que regressam lesionados das seleções. Casos como os de Raphinha, Adam Wharton e John Stones voltaram a alimentar o debate sobre a sobrecarga competitiva. O presidente do FC Barcelona, Joan Laporta, criticou publicamente o calendário internacional, apontando-o como fator decisivo para a lesão sofrida por Raphinha.

O Arsenal FC foi um dos clubes mais afetados nesta pausa internacional. Vários jogadores, entre os quais Declan Rice, Bukayo Saka e Martin Zubimendi, regressaram mais cedo dos estágios das seleções, juntando-se às ausências previamente confirmadas de William Saliba, Gabriel Magalhães e Jurriën Timber das convocatórias. Numa fase decisiva da temporada, este tipo de situações levanta inevitavelmente dúvidas sobre a real condição física dos jogadores.

Estas suspeitas de falsas lesões ocorrem em volta de todo o mundo. Salomón Rondón, capitão da Venezuela, recorreu às redes sociais para criticar a atitude do seu colega de seleção, Jefferson Savarino, que foi retirado da convocatória por alegados problemas físicos. Contudo, no regresso ao Fluminense FC, o médio foi titular no encontro frente ao SC Corinthians.

As Datas FIFA criam, por vezes, uma certa tensão entre clubes e federações. Bernardo Silva foi dispensado da seleção nacional, com base na informação transmitida pelo departamento médico do Manchester City FC, mas o mesmo critério não foi aplicado no caso de Diogo Costa. Apesar da lesão constar no boletim clínico do FC Porto, a FPF obrigou o guarda-redes a deslocar-se até à Cidade do Futebol, em Lisboa, para realizar exames médicos.

Embora tenha sido convocado, Pedro Gonçalves é um caso que ilustra bem como o desgaste acumulado pode condicionar o rendimento e aumentar o risco de problemas musculares. O médio leonino já tinha enfrentado problemas físicos na época passada e voltou a lidar com limitações nesta temporada. Durante esta Data FIFA, realizou treino condicionado e não jogou nas duas partidas. Segundo O JOGO, o Sporting CP contactou a FPF sobre o estado físico do atleta e sugeriu que tivessem cuidados redobrados com o atleta.

Ainda assim, as explicações dadas posteriormente por seleção e clube acabaram por revelar leituras distintas sobre a condição física do atleta. Após o jogo com os Estados Unidos, Roberto Martínez explicou que o camisola 8 dos leões não somou qualquer minuto porque “a relva era um bocadinho perigosa” e que o jogador “chegou um bocadinho condicionado”. Por outro lado, Rui Borges, na antevisão à receção ao CD Santa Clara, desmentiu o selecionador, garantindo que Pote está “descondicionado por não ter tido minutos. Se não estivesse bem, não estaria até ao final do estágio na Seleção”.

No relatório da FIFPRO, Overloaded and Underprotected: The Impact on Player Health and Performance, referente à época 2024/25, os peritos em alto rendimento defendem que os jogadores devem dispor de 28 dias de folga fora da época regular, algo que não foi cumprido pelo Manchester City FC (25), PSG (22), Chelsea FC (20), Real Madrid CF (20).

Os especialistas recomendam, também, o período mínimo de 28 dias de pré-época, critério que não foi respeitado pelos finalistas do Mundial de Clubes, PSG e Chelsea FC, nem por Real Madrid CF e Manchester City FC. Os merengues e os citizens tiveram 19 dias de pré-época, os blues 13, enquanto os parisienses tiveram apenas sete dias.

Em comparação com outros desportos profissionais, o futebol revela-se mais exigente. Enquanto um futebolista de elite dispõe, em média, de apenas três semanas de férias, os finalistas da NBA e da AFL beneficiam de cerca de 14 semanas, e os da MLB de 15.

De acordo com Darren Burgess, consultor de alto rendimento da FIFPRO, uma pré-epoca muito curta não causa apenas desgaste físico, como afeta o psicológico dos jogadores. O caso de Rodri é particularmente elucidativo. Entre as épocas de 22/23 e 23/24, o médio espanhol acumulou 135 jogos, em 14 competições distintas. Após contrair uma lesão muscular na final do EURO 2024, realizou uma pré-época demasiado curta (17 dias). O regresso prematuro à competição ditou uma rotura do ligamento cruzado anterior (LCA), afastando-o dos relvados durante 34 semanas.

O relatório anual da FIFPRO revelou que vários jogadores ultrapassaram o limite de 55 jogos por época considerado recomendável, como o caso de Luka Modrić, que apesar de ter sido muitas vezes suplente utilizado, participou em 76 jogos, 55 dos quais consecutivos. Federico Valverde somou 72 encontros, 58 seguidos. O português que disputou mais encontros foi João Neves, que totalizou 69 confrontos, 20 consecutivos, seguido de Bruno Fernandes com 68 aparições, 49 seguidas. Kim Min-Jae realizou uma sequência ininterrupta de 20 jogos durante 73 dias, correspondendo a uma carga de jogo de alta intensidade a cada 3,6 dias, culminando numa lesão no tendão de aquiles.

Em alguns casos, o intervalo entre um jogo internacional e a partida seguinte pelo clube foi inferior a 48 horas, como demonstra o relatório da FIFPRO, que identificou intervalos de apenas 46 horas (Ronald Araújo ao representar o Uruguai e o FC Barcelona) e 44,7 horas (Miguel Almirón ao serviço do Paraguai e do Atlanta United).

Durante a janela internacional de outubro de 2024, Moisés Caicedo completou quatro jogos em 14 dias, atravessando dois continentes e três países. Ao todo, percorreu 24.797 quilómetros, cruzou 10 fusos horários e jogou 360 minutos, com um tempo médio de recuperação irrisório de 110,8 horas entre duelos. O guarda-redes, André Onana, finalizou a época 24/25 com 127.148 quilómetros de viagens, 33 voos e 69 fusos horários cruzados, traduzindo-se num total de 169 horas (mais de uma semana inteira) passadas dentro de um avião.

Quase metade da amostra analisada (49%) pela FIFPRO foi classificada em níveis de carga alta ou excessiva, sendo o elevado número de jogos internacionais por clube e seleção o principal fator. Os recentes pedidos de adiamento de jogos e reajustes do calendário em clubes como Sporting CP, SC Braga e Paris Saint-Germain FC demonstram como o calendário é extenso. Até que ponto pode o futebol continuar a acrescentar jogos sem sacrificar a saúde dos jogadores e a qualidade do espetáculo?