O que é esperado após a morte de um ser querido? Tristeza, choro, angústia, um tempo considerável de luto, etc. O Estrangeiro de François Ozon, baseado na obra original de Albert Camus, apresenta-nos uma personagem que, após a morte da mãe parece completamente indiferente.
Lançado inicialmente em 2025, e estreado em Portugal em março deste ano, o filme recebeu quatro indicações aos prémios César. A história segue Meursault (Benjamin Voisin) um jovem francês que vive em Argel no final da década de 30. Taciturno, modesto e empregado de escritório, Meursault parece viver indiferente a tudo: a morte da mãe, ao sofrimento alheio, ao maltrato animal, inclusive à dor própria, quando se corta acidentalmente ao fazer a barba.
Isto muda ligeiramente quando se reencontra com alguém por quem teve sentimentos no passado, a Marie (Rebecca Marder). Estes reconectam rapidamente, transbordando química através do ecrã. Aqui, passada a primeira meia hora do filme, vemos o protagonista sorrir pela primeira vez, ou mostrar algum tipo de expressão. Ao encontro, segue-se um dos diálogos mais reveladores da psique do jovem:
– “Estás de luto?”
-“A minha mãe morreu ontem”
-“Sinto muito…”
-“Queres ir ao cinema?”
Apesar de gostar da Marie e sentir-se atraído por ela, este não mostra qualquer tipo de interesse sobre o seu futuro com a jovem ou sobre os seus sentimentos. Nada parece ter significância, tudo é absurdo. Durante o resto do filme a apatia do protagonista irá desencadear uma tragédia na praia argeliana, sob um sol insuportável.
Gravado a preto e branco o filme transmite o mesmo ar dos clássicos franceses. A falta de cor é, também, um simbolismo da falta de interesse que Meursault tem pela vida, o seu aborrecimento perpétuo. A luz do filme é natural quase na sua totalidade. O sol argeliano, que tem um papel central na obra, cria reflexos brancos e brilhantes que fazem ao espetador sentir o seu calor o seu peso.
Ao contrário do livro, o filme apenas tem o discurso interno do protagonista no final, fazendo com que todo o peso emocional do filme recaia sobre a atuação do ator principal. Benjamin Voisin interpreta de forma estelar o protagonista, tanto nos seus momentos de apatia, como nos poucos em que mostra emoção. O ator consegue que a ataraxia e a honestidade brutal de Meursault não se torne insuportável, despertando empatia por ele.
François Ozon consegue capturar a essência da obra original excecionalmente. Desde a ausência de cores, a música suave e melódica quando Marie entra em cena, a ausência de som em determinados momentos, a luz solar que se mostra tão delicada como sufocante e o diálogo, reflete na perfeição a obra original. O ritmo da longa-metragem é relativamente lento, no entanto, este fator só ajuda a sentir o dito aborrecimento perpétuo do protagonista.
Apesar de ser um filme intimidante, por parecer a típica obra pretensiosa a preto e branco sobre um livro filosófico, a visualização é recomendada. Mesmo para quem nunca teve a oportunidade de ler o livro, a adaptação é extremamente fiel. O Estrangeiro de 2025 resulta ser uma obra-prima que transmite o existencialismo e o absurdismo de forma bela através de planos artísticos e música espetacular.
Realização: François Ozon
Argumento: François Ozon
Elenco: Benjamin Voisin, Rebecca Marder, Pierre Lottin
Data de lançamento: 12 de março de 2026




