Entre a espontaneidade e a procura pela verdade, a banda constrói um universo onde a música serve de abrigo — e de impulso para imaginar um mundo melhor.
Sob o disfarce de álbum, em O Melhor e o Pior da Música Biológica, os Unsafe Space Garden desdobram-se sobre o êxtase de viver, com o intuito de “injetar muita alegria e esperança nas pessoas”. De Guimarães ao Texas, a sua viagem fez-se sempre de sorriso aberto e olhos brilhantes — e o ComUM, em entrevista a Alexandra Saldanha e Nuno Duarte, foi saber mais sobre ela.
Como surgiu a vossa conexão e a vontade de fazer este projeto?
Alexandra Saldanha: Nós conheciamo-nos só de vista porque andavamos num colégio de freiras, aqui em Guimarães, quando éramos muito pequeninos. Toda a gente no meu ano o identificava como o Nuno da Guitarra, porque ele tocava guitarra. Já eu era muito de musicais e escondia-me atrás do palco a cantar e a convidar quem me quisesse a ouvir. Acho que a música foi sempre uma coisa que queríamos. Depois voltámo-nos a encontrar. O Nuno esteve emigrado em França a tentar juntar dinheiro para estudar música e eu estive emigrada em Inglaterra. Não sei o que é que eu estava lá a fazer. Acabamos por voltar [para Portugal] no mesmo mês do mesmo ano, em 2015. Conhecemo-nos mesmo num bar de jam sessions e apaixonámo-nos. Pouco tempo depois, começamos a brincar a fazer música juntos [risos]. Volta e meia o Nuno começou a compor o que vieram a ser os Unsafe Space Garden e deixou-me entrar.
Pegando nesta ideia de como sugiram os Unsafe Space Garden, como é que vocês chegaram a este vosso estilo tão próprio e particular? A verdade é que é diferente de qualquer outra banda, vocês são únicos.
Nuno Duarte: Obrigado. [risos] Não sei, é um bocado difícil.
AS: É um bocado sem querer.
ND: Ou seja, nós só procurámos ser…
AS: Honestos.
ND: Exato.
AS: Acho que o que ajuda muito a fazer [música] como nós fazemos é eu estar sempre a tentar apanhar o Nuno desprevenido, ou surpreendê-lo. Sempre que estamos a fazer música, eu estou a tentar fazê-lo rir e ele a mim. Isso faz com que as coisas sejam um bocadinho mais estranhas do que podiam ser e um bocado diferentes do que normalmente se pensa quando se está a fazer uma música. Quando tento fazer o Nuno rir surge uma ideia que parece idiota, mas depois ele gosta e a ideia fica, e o Nuno faz o mesmo comigo. De repente as ideias idiotas são as principais e são a música que nós fazemos.
ND: Sim, eu diria que parte de tentar que aquilo que estás a fazer, para ti, seja verdade. E depois, dessa interação dos dois, parte para a interação com o resto da banda. Todos têm os seus inputs e este ‘tentar fazer rir os outros’, mesmo com a música. E pronto, de repente temos esta coisa estranha que dizes que é única, o que é fixe. É fixe saber e ouvir isso.
Acerca de influências, há algum disco ou banda que vos tenha marcado?
AS: Sim, nós ainda ontem estávamos a fazer uma lista de discos que trouxeram coisas muito importantes à nossa vida como seres humanos e músicos. Por exemplo, of Montreal é uma influência — o disco o Hissing Fauna, Are You the Destroyer?, em particular. Depois Frank Zappa é o mais óbvio para muita gente. O Apostrophe (‘), especialmente. O Nuno gosta muito de Fiona Apple.
ND: Sim, há discos que nós ouvimos muito…Tábua de Esmeralda do Jorge Ben Jor, por exemplo. O InnerSpeaker dos Tame Impala.
AS: Depois há muita Alice Coltrane, Sun Ra.
ND: Nós gostamos de música e gostamos de ouvir. Acho que não é muito pelo género. Se calhar sentimos que alguma coisa é real naquilo que ouvimos, e automaticamente dá-se um clique. Um dos discos que influenciou o último que lançámos é um português de que praticamente ninguém fala. É de uma banda chamada Ocaso Épico, chama-se Muito Obrigado.
Como é que evoluiu o vosso som, desde o princípio da banda até agora?
AS: Como nós fazemos música só os dois, não tocámos bateria. E como eu não sou proficiente em instrumento nenhum, o Nuno acaba por ser multi-instrumentista. Mas, na verdade, por não tocarmos os instrumentos todos, acabamos por nos desafiar a tentar compor. Agora que temos uma banda, que é parte da equipa, ela participa mais a todos os níveis. Às vezes estamos a compor e pensamos “era fixe que agora o Cardita, o baterista, fizesse uma cena que quase implica ter oito braços”. Tentamos desafiá-los a eles e acabamos por nos desafiar a nós. De disco para disco fica tudo mais difícil tocar, o que é divertido, mas é horrível. Agora vamos ter concertos de lançamento e temos falado do quão assustador é tocar um disco pela primeira vez porque… nunca é perfeito.
ND: Não podes recorrer a nada do que estiveste a tocar nos últimos anos e já sabes que a maior parte das vezes vai funcionar, vai ter um impacto nas pessoas. Agora vais um bocado no vazio, não sabes qual vai ser a reação.
AS: Há também outra coisa, não a nível técnico, mas a nível criativo. A evolução acontece muito só de estarmos vivos. Eu acho que isto soa mais parvo do que o que é, mas as músicas que tentámos fazer são muito reais para nós. Quando tentamos ser coerentes com o nosso trabalho estamos sempre a tentar ser pessoas melhores. Às vezes, ser melhor não é em frente, é para os lados, mas é um caminho. A música acompanha muito esse nosso processo e nós tentámos acompanhar o das músicas.
Já referiram o vosso novo álbum, O melhor e o pior da música biológica. O que é que, no fundo, este disco quer transmitir ao público?
AS: Eu acho que o que nós queremos transmitir é que é possível salvar o mundo, não é tarde demais. Não é tarde demais para salvar a humanidade, é possível a espécie humana sobreviver em alegria, paz e coexistência funcional. O disco é uma tentativa de injetar muita alegria e esperança nas pessoas.
ND: Tem um bocado a ver com isso, nós tentámos que fosse um disco superpositivo, ainda que tenha o nome O melhor e o pior da música biológica, e era isso que queríamos provocar em alguém a ouvi-lo — que se sentisse em êxtase.
AS: E que sentisse compreendido. Nós sabemos que a vida às vezes parece horrível, mas fizemos uma música chamada A vida não é uma merda. Isto porque no contexto em que tu estás a achar que a vida é péssima ainda há soluções, a vida é só a vida e nós estamos a vivê-la. [risos]
E sobre o processo criativo de compor este álbum?
ND: Não é de todo uma coisa linear — nunca foi — acho que só tentámos ser constantes, quando estamos a compor, a nível de assiduidade, [risos] de ir para o sítio em que realmente conseguimos estar a carregar no rec e a fazer coisas. Muitas vezes estás à roda numa rotunda e não chegas a conclusão nenhuma, mas acreditas naquilo que está ali. Há vezes em que parece que nunca vamos desenvolver uma certa música, mas depois, passado uma semana, ela aparece.
AS: Muitas vezes é o Nuno na guitarra sozinho, ou canta uma parvoíce qualquer e eu chego lá e digo ‘não é bem assim’ e destruo tudo. Depois, com o que eu destruo, ele tenta construir de novo e começamos os dois a dançar com a ideia.
ND: É um exercício de fé e é um exercício também de combater egos. Quando tens uma música que está praticamente feita há uma certa relação emocional que tens com aquilo. Depois chega uma pessoa e diz ‘tira isso tudo vamos fazer só com aquela pequena parte do início que é fixe’. A Mais Uma Voltinha surgiu assim, o nosso segundo single deste último disco. É engraçado agora ouvir o que era a música antes.
Vocês fizeram recentemente uma tour nos EUA, no Texas – como foi?
AS: Foi incrível. Foi estranho porque eu sou de Silvares e ele é da Costa, e atravessar um oceano parecia impossível no geral. De repente fomos aos EUA para cantar, é surreal. As pessoas receberam muito bem as nossas propostas musicais. O público era sempre muito simpático e vinha gente chorar no final e dar abraços, a dizer ‘mudou a minha vida’ e isso é muito emocionante a vários níveis. As pessoas são muito abertas, muito simpáticas, não estávamos à espera disso. Austin, a cidade onde estivemos, tinha milhões de pessoas, e de repente estamos a andar na rua e as pessoas dizem-nos olá, metem conversa e interessam-se. Foi muito bonito de ver, e fez-nos experienciar o que nós cantamos numa das músicas, ‘se calhar viemos todos do mesmo sítio’. Eles são tão diferentes de nós. Os governantes dos EUA estão a determinar o destino de toda a gente, mas os cidadãos são pessoas como tu, que estão à procura do mesmo, e ainda não sabem muito bem como, tal como todos nós.
Como sentem a experiência de tocar para um público?
AS: Eu diria que o ciclo vicioso de muitos artistas é a sua autoestima estar necessariamente, inevitavelmente e tragicamente ligada a poder tocar ao vivo. Quando tocamos ao vivo eu fico logo mais confiante. Compor em casa é uma das coisas mais divertidas do mundo, mas não se compara à sensação de estar a tocar para um público. É viciante, passa demasiado rápido. Se tu tens um concerto às dez da noite, o dia do concerto começa logo que acordas. E aquela adrenalina de ir tocar, de repente, acabou, é só uma hora. É também muito mágico saber que podes influenciar positivamente o dia ou a vida de alguém. Saber que tudo começou quando cantaste umas coisas no teu quarto e as pessoas sentem-se agasalhadas por isso. Então às vezes também temos de ser chungas connosco e dizer, ‘não prestes, tens de ser melhor’, para não subir à cabeça.
Certas pessoas podem pensar que a parte teatral dos vossos espetáculos não é ensaiada, pela naturalidade com que a fazem.
ND: É não é, porque há uma espécie de texto base que se interioriza, mas no momento apenas sai.
AS: O nosso baixista, o Filipe, que é muito maestro dos ensaios, não nos deixa ler texto — ‘tens aqui o mote, agora improvisa’, e sai sempre diferente. Muitas vezes, no final, até perguntamos a pessoas que conhecemos se estávamos a derrapar. Houve um concerto em que ficámos em silêncio quase um minuto e começámos a disfarçar a meio de uma música. Ninguém entrou, por algum motivo. Nós só ficámos um minuto a fingir do tipo, ‘ah, aconteceu algo’, e ninguém reparou que era um problema técnico. Toda a gente achou que fazia parte [do espetáculo]. O bom de fazermos as coisas como fazemos é que tudo é válido.
ND: No último concerto no Texas, o Filipe, a meio de uma música, teve um ataque de riso. A música foi toda abaixo e ele ficou a ter um ataque de riso durante um minuto. Parece pouco, mas durante o concerto não é. Só começámos a olhar para ele e tivemos nós um ataque de riso, e as pessoas começaram a ter um ataque de riso. Depois continuámos.
Quando são os próximos concertos?
AS: Vamos tocar o novo disco no dia 9 de abril em Lisboa, no Beleza, e dia 10 de abril no plano B, no Porto. Estamos com muito medo, mas vamos com tudo o que temos.
No meio de risos, improvisos e uma vontade genuína de criar, os Unsafe Space Garden mostram que a música pode ser mais do que som — pode ser um espaço de encontro, verdade e esperança. Entre o caos criativo e a honestidade que os guia, fica a certeza de que, para a banda, ainda há muito por sentir, partilhar e, quem sabe, transformar.


