A peça de teatro aconteceu no dia 13 de junho, no Teatro Gil Vicente.

Depois da estreia em Lagoa, a 22 de maio, e da passagem por Ponte de Lima no dia 29 do mesmo mês, “As Três Irmãs” apresentou-se no Teatro Gil Vicente, às 21h30, no dia 13 de junho. A peça estará em digressão nacional até março de 2027, com datas ainda por anunciar.

O espetáculo é produzido pela Momento — Artistas Independentes, escrito por Filipe Gouveia e encenado por Diogo Freitas, sendo adaptado da peça de Tchekhov, mas diferenciador pela mistura de ficção com realidade que traz para cima do palco. A apresentação reflete sobre temas como o lugar de fala, a política do cancelamento, a ideia de velhice, a comunidade LGBTQIAP+ e até a relevância de adaptar uma peça de um autor russo no contexto geopolítico atual.

Desta forma, a peça passa-se numa sala de ensaios de um teatro, em que três atores, que interpretam as três irmãs, se deparam com responsabilidades e frustrações. O encenador nem sempre dirige da melhor forma, o dramaturgo está constantemente a entregar folhas novas aos atores durante o ensaio e as vivências das personagens cruzam-se com as dos próprios atores que as interpretam.

“As Três Irmãs” conta com a atuação de Clara Nogueira, Diogo Freitas, Filipe Gouveia, Marta Andrino, Rafael Gomes e Tomás Bárbara. Além disto, é um espetáculo acessível, incluindo interpretação em Língua Gestual Portuguesa e ainda Audiodescrição.

O ComUM entrevistou o encenador da peça, Diogo Freitas, sobre o espetáculo:

ComUM: Qual foi a inspiração para esta peça que oferece uma dinâmica incomum?

Diogo Freitas:  Há dois ou três anos […] pensei que queria principalmente refletir sobre o teatro contemporâneo, o que é hoje o teatro e porque é que o continuamos a fazer, dado que existem tantas coisas com as quais concorremos, como plataformas de streaming e cinema. Então, porque é que o teatro ainda é uma arte, que é viva e só acontece ali na hora? […] Eu trabalho muito sobre a portugalidade dos espetáculos e sobre esta ideia do que é ser português. “As Três Irmãs”, para mim, é uma obra com um tom muito português, é uma obra que é focada na vida destas três irmãs, e elas ficam presas a alguma inércia, não tomam nenhuma decisão no caminho, nem sobre as condições da vida delas, então deixam-se ver a vida a passar. É um pouco esta ideia portuguesa — “esperamos, esperamos” —, um pouco o que Fernando Pessoa disse — “a vida passa, não nos diz nada e envelhecemos” —, e isto acontece nestas três figuras. Então quando comecei a trabalhar a portugalidade, pensei que nada era melhor que fazer estas três irmãs. A obra que o Tchekhov escreve é uma apologia à humanidade e eu quis mantê-la, e por isso é que falamos em muitas coisas na obra. […] Partilhamos com os espectadores esta ideia um pouco romantizada do que é criar um espetáculo.  […] Falamos totalmente sobre a ideia de que é preciso viver, independentemente do que acontece, e abrimos e fechamos a peça com esta apologia de que é preciso viver e de que vivamos.

ComUM: Quais os principais temas que a peça pretende abordar?

Diogo Freitas: Os grandes temas da peça são dentro da humanidade, falar sobre a velhice, falar sobre a comunidade LGBTQIAP+, e falar sobre a criação artística, de como é que é criar um espetáculo hoje, a quem se dá o papel, a quem não se dá o papel, quem se convida. E relações de poder também, o espetáculo fala um pouco sobre este lugar das relações de poder que existem na sociedade, mas que aqui no espetáculo, estão espelhadas nesta figura, que é o encenador (que sou eu, eu entro também como ator no espetáculo), esta figura de poder, que de repente, a meio do espetáculo perde este lugar […]. Portanto há aqui uma relação direta de acontecimentos na peça do Tchekhov, que acontecem espelhados à realidade de hoje e a uma situação mais contemporânea.

ComUM: Já que esta é uma peça que aborda temas tão atuais, considera que o teatro deve ter o papel de levantar debates?

Diogo Freitas: Eu, enquanto criador, acho que sim. Gosto que o teatro tenha um papel social e um papel de debate nos meus espetáculos e nas criações que faço com a Momento. Acho que tem de haver um impacto que fique para lá do espetáculo — gosto que as pessoas saiam e mais do que “gostei” ou “não gostei”, debatam também. O espetáculo fala muito sobre esta política do cancelamento, que se fala muito nos dias de hoje, esta coisa super mediática de cancelar em praça pública. Mas é muito mais importante para mim o espectador ou espectadora sair e debater — “olha, eu penso como aquela personagem” ou “eu não concordo com aquela”. Esse debate que fica pós espetáculo, para mim. é muito importante. E eu acho que existe um mito que diz “vamos ao teatro para lavar os olhos, para ver o mundo de outra perspetiva”, e […] essa é uma das minhas ideologias de fazer teatro, que quando as pessoas se sentam a olhar um espetáculo, que saiam e que reflitam, mais do que dar respostas, porque eu não gosto e nem me identifico com o teatro que dá uma resposta, que diz o que é certo, que diz o que é errado ou que é moralista. Eu gosto que o espectador sinta “ok, eu penso isto, mas também penso aquilo”, e para mim, este exercício democrático de debate é muito mais importante quando se sai de um espetáculo, do que sair-se com uma moral.

ComUM: Ou seja, o espetáculo não tem uma ideia clara e objetiva, é suposto criar esta ideia de debate e liberdade de pensamento?

Diogo Freitas: Sim, por um lado, não diz o que é errado, nem diz o que é certo, mas dá esta ideia de monstros que andamos a construir hoje em dia na sociedade. Temos a extrema-direita a avançar imenso em Portugal, temos esta ideia da equidade e da responsabilidade social, que existe cada vez menos no dia-a-dia e no mundo, à macro e microescala. E há esta ideia que eu quero que fique, o mundo está a ser isto, estamos a ir por um caminho, estamos a construir estes monstros, mas se calhar o amor é a resposta, se calhar só precisamos de nos escutar e pensar em conjunto: não há uma ideia fechada, há possibilidades e o público escuta-as e percebe o impacto que estão a criar dentro de si.

ComUM: Qual é o motivo por trás da escolha da peça adaptada?

Diogo Freitas: Eu gosto muito da peça, mas acho que é mesmo por eu gostar de trabalhar esta ideia da portugalidade e do que é ser um artista português, e tentar sempre […] ter uma base dramatúrgica. Claro que o desafio é maior, porque já existe todo um contexto da obra, já existe aqui um lugar de ”As Três Irmâs”, é um clássico, toda a gente conhece, há repertório, mas eu gosto de me desafiar e usar esse lugar que existe nesta peça, que toda a gente conhece ou já ouviu falar, e desconstruí-lo completamente.

ComUM: Qual foi o principal desafio que sentiu durante a encenação da peça?

Diogo Freitas: Eu enceno e entro como ator e a maior dificuldade que eu tive neste projeto foi o exercício quase “esquizofrénico” de fazer dentro e depois vir para fora, gravar os ensaios… E o maior desafio, mas também foi das coisas mais bonitas, porque esta equipa também me deu muita generosidade, foi escutar-me e pensar “ok agora vou fazer isto, mas não estou a fazer, estou só a dizer”, então estamos numa ideia de construção, mas só em palco é que eu vou para cena, então isto também é difícil para eles e para elas [atores e atrizes] porque eu não estou lá, e eles precisam de mim lá para poder construir o espetáculo, para o espetáculo crescer.

ComUM: O que torna esta peça diferente das outras?

Diogo Freitas: O que torna esta peça diferente é que foi criada por estas seis pessoas que estão em cena, e fala de muita coisa, muita coisa séria, mas não deixamos que a essência se perca, que é fazer teatro, e que é estarmos a representar. E isto é muito especial e muito diferente porque este espetáculo tem mesmo muita coisa. Há dias, estávamos a falar com pessoas que foram ver a estreia e dissera, “eu ri, eu chorei e depois voltei a rir”. Não posso deixar de fazer este exercício, enquanto encenador/criador, que é o público que está ali quer ver um espetáculo e tem que ter esta espetacularidade de um objeto cénico.

ComUM: O que diria para cativar o público a ir assistir à peça?

Diogo Freitas: É um espetáculo muito divertido que fala sobre tudo — de várias gerações, por exemplo, desde o Tomás que tem 22 anos até à Clara que tem 67, portanto estamos a falar de muito pensamento reunido, muita partilha. Acho que é um espetáculo feito para nos lembrarmos que vivemos em democracia e que ainda vamos ao teatro para chorar, para rir e para termos emoções.