Do palco Vodafone ao Coura Sem Paredes, os dois dias reuniram artistas nacionais e internacionais perante um recinto que acompanhou a programação até à madrugada.
Da intervenção política à celebração da música portuguesa, passando por diferentes formas de explorar a guitarra e a eletrónica, os dias 13 e 14 do Vodafone Paredes de Coura reuniram alguns dos momentos mais marcantes desta edição, numa programação que se estendeu da tarde à madrugada.
A tarde do dia 13 começou no palco Coura Sem Paredes com Milhanas, num concerto que acompanhou a chegada do público ao recinto. Às 17h10, A Garota Não abriu a programação do palco Vodafone com um dos momentos de maior intervenção política do dia. Acompanhada por excertos de áudio que se cruzavam com as canções, a artista fez uma crítica explícita à privatização do litoral e recuperou a expressão “Privatize-se Tudo”, de José Saramago, dando corpo a um manifesto sobre as causas que tem vindo a defender.
A neozelandesa Aldous Harding surgiu mais tarde no mesmo palco com uma proposta diferente. Num exercício de contenção, feito de olhares fixos, silêncios e pequenas alterações na dinâmica das músicas, a cantora abrandou o ritmo do recinto. A atuação viveu sobretudo da voz e da forma como Harding ocupou o palco, sem recorrer a grandes gestos.
Logo depois, Kurt Vile & The Violators apresentaram o seu rock descontraído, centrado na guitarra e num repertório que passou por temas como “Hey Like a Child”, “Bassackwards”, “Rock o’ Stone”, “99 BPM”, “Girl Called Alex”, “Chance to Bleed”, “Pretty Pimpin” e “Waking on a Pretty Day”. Entre folk-rock, psicadelismo e rock alternativo, o músico norte-americano manteve ao longo da atuação a forma característica do seu trabalho.
No Coura Sem Paredes, entretanto, passaram Tomode, Friko e Pale Jay. Às 23h15, no palco principal, o duo suíço-equatoriano Hermanos Gutiérrez construiu o concerto praticamente sem palavras, entre ecos de western e referências à música latina. Os primeiros minutos ficaram condicionados pelo som que ainda chegava do outro palco, mas a situação acabou por ser ultrapassada. A partir daí, Alejandro e Estevan Gutiérrez deixaram que as guitarras ocupassem o centro da atuação, num concerto que recebeu uma forte resposta do público.
Após a atuação da dupla, os WU LYF assumiram o Coura Sem Paredes. No palco Vodafone, os Underworld preparavam o encerramento da noite.
A banda de música eletrónica fechou o segundo dia do festival no palco Vodafone com um concerto construído para prolongar a noite e suspender o cansaço dos festivaleiros. Karl Hyde e Rick Smith cruzaram diferentes fases da carreira num alinhamento que passou por “Pearl’s Girl”, “Dark & Long (Dark Train)”, “Kittens”, “Two Months Off”, “and the colour red”, “Arp12” e “Moaner”. As músicas sucederam-se com poucas pausas, acompanhadas por luzes intensas, fumo e projeções.
A frase “From Romford to Paredes de Coura”, projetada no fundo do palco, resumiu a distância percorrida pela dupla britânica desde a sua cidade de origem até ao anfiteatro minhoto. “Moaner” trouxe peso à reta final e preparou o terreno para o momento mais aguardado. Quando “Born Slippy .NUXX” apareceu, bastaram os primeiros sinais do tema para o anfiteatro responder em coro, com o célebre “lager, lager, lager” a percorrer o recinto. Karl Hyde dedicou a música ao público e, no final, Hyde e Smith agradeceram longamente antes de abandonarem o palco.
No Coura Sem Paredes, os Show Me The Body levaram a programação pela madrugada. A atuação de Bassvictim, que estava prevista para encerrar a noite, tinha sido entretanto cancelada pela organização por motivos alheios ao festival. Para ocupar esse horário, o DJ e produtor AlFaer foi anunciado como substituto.
No dia 14, a programação começou novamente durante a tarde, com Noko Woi no Coura Sem Paredes. No palco Vodafone, os espanhóis Carolina Durante encontraram-se perante uma cenografia que simulava um escritório abandonado, com secretárias, computadores antigos, monitores de tubo e impressoras. A banda levou a Coura o seu indie rock de influência punk e pop, num concerto marcado pela energia transmitida.
Depois de Strawberry Guy no Coura Sem Paredes, Sérgio Godinho subiu ao palco Vodafone acompanhado pelos Assessores. Aos 80 anos, o músico apresentou um repertório construído ao longo de mais de cinco décadas perante um anfiteatro onde se cruzavam diferentes gerações.
Samuel Úria, Manuela Azevedo, Ana Lua Caiano e Capicua foram entrando ao longo do concerto. Milhanas e A Garota Não juntaram-se também a Sérgio Godinho para interpretar “Balada da Rita”, num dos vários momentos de colaboração da tarde. Já perto do final, “Os Vampiros”, de José Afonso, reuniu novamente os convidados em palco antes de “Liberdade” ser cantada em conjunto pelo palco e pela plateia.
Enquanto isso, no Coura Sem Paredes, Rvan Davis & The Roadhouse Band preparava a atuação seguinte. Depois de Sérgio Godinho, foi a vez de Benjamin Clementine subir ao palco principal.
Uma produção quase inteiramente branca envolvia o piano, enquanto o músico britânico, de pés descalços, óculos escuros e um sobretudo longo, ocupava o centro do cenário. “Nemesis”, “Adios”, “I Won’t Complain”, “Condolence” e “Cornerstone” fizeram parte do alinhamento, entre momentos ao piano e uma forte interação com a plateia.
Clementine percorreu o palco, gesticulou e ensinou versos ao público. No final, aproximou-se da primeira fila e abraçou um rapaz que segurava um cartaz onde se lia “My name is Benjamim because of you”.
Às 21h55, o Coura Sem Paredes recebeu os brasileiros Terraplana. No palco Vodafone, os Bloc Party entraram, quase vinte anos depois da primeira passagem da banda por Paredes de Coura. Os primeiros minutos encontraram uma plateia ainda pouco reativa, mas “Song for Clay (Disappear Here)” marcou a mudança no ambiente. “Banquet”, “Traps”, “The Love Within”, “Hunting for Witches”, “Positive Tension”, “This Modern Love” e “Helicopter” fizeram parte do alinhamento, que cruzou temas de diferentes fases da carreira. Russell Lissack enfrentou alguns problemas técnicos com os pedais durante o concerto, chegando a substituir equipamento, enquanto Louise Bartle assegurava a bateria. “This Modern Love” foi um dos momentos de maior resposta do público, antes de “Ratchet” encerrar a atuação. “So Here We Are” ficou de fora do alinhamento.
No Coura Sem Paredes, Vendredi Sur Mer atuou à meia-noite. Já depois da uma da manhã, M.I.A. fechou o palco principal. A artista britânica-cingalesa começou por recuperar a componente eletrónica e performativa associada à sua carreira, acompanhada por dançarinos e figurinos metalizados. A atuação ganhou depois uma dimensão religiosa, com um coro de nove pessoas em palco, uma cruz cristã projetada entre as luzes e referências à sua relação com a fé e com Jesus.
“Paper Planes” voltou a aproximar a artista do público, com uma parte considerável da plateia a levantar os telemóveis para registar o momento. Entre os espectadores, vários fãs usavam chapéus de alumínio, numa brincadeira relacionada com as teorias da artista sobre 5G e a Covid-19.
No outro lado do recinto, os Maruja prolongaram a noite. A banda britânica regressou a Paredes de Coura depois de ter cancelado a atuação na edição anterior por motivos de saúde. O palco secundário encerrou a programação com o DJ set de Joy Orbison.
Os dias 13 e 14 deixaram no Taboão alguns dos momentos mais marcantes desta edição do Vodafone Paredes de Coura. A programação dos dois dias percorreu diferentes palcos e horários, com propostas distintas que exploraram a relação entre artistas e público.


